Entenda os principais conflitos religiosos do mundo

Entenda a dinâmica, as raízes e as consequências de conflitos religiosos ao longo do tempo

| 06/03/2008 - 00:00

Casas, fazendas e igrejas destruídas na Nigéria exemplificam um conflito religioso que já causou muitas mortes e milhares de desabrigados

Casas, fazendas e igrejas destruídas na Nigéria exemplificam um conflito religioso que já causou muitas mortes e milhares de desabrigados


Uma das acusações mais comuns feitas às religiões é que elas causam mais violência do que paz. Por essa ótica, o mundo seria um lugar melhor sem elas e suas rixas. Há alguma verdade nisso. Os conflitos religiosos atravessam continentes, épocas e ainda hoje influenciam a política, a economia e as comunidades.

O que é um conflito religioso?

De acordo com o dicionário, uma das definições da palavra conflito é “profunda falta de entendimento entre duas partes ou mais”. Quando se trata de conflitos religiosos, temos como causa do desentendimento entre as partes questões ou divergências religiosas. Essa divergência pode resultar em combates ou até mesmo atos de violência.

Debates históricos, guerras, lutas e disputas internas definiram os mapas contemporâneos do mundo. E a forma com que isso aconteceu fez com que poucos se dessem conta. Por exemplo, a União Europeia “cristã” surgiu da vivência das invasões muçulmanas dos séculos 14 a 17 e da ocupação de parte da Europa Oriental pelo islã até o século 20.

As Cruzadas, por exemplo, aconteceram do século 6 ao 8 e tinham como objetivo impor o cristianismo na Terra Santa (Palestina). Já os violentos conflitos no Iraque têm raízes na dissidência entre muçulmanos sunitas e xiitas, no século 7, e lutas em certas áreas no Sudão, Etiópia e Nigéria remontam ao século 10.

Quais são os principais conflitos religiosos da atualidade?

Na Índia, radicais hindus querem limpar todas as outras religiões do país, o que resulta em diversos conflitos religiosos

Atualmente, diversos países vivem intensos conflitos religiosos. No Afeganistão, em 1996, o Talibã assumiu o controle de Cabul e impôs a sharia (conjunto de leis islâmicas) radical até 2001, quando foi expulso do poder pela invasão militar liderada pelos Estados Unidos. Porém, o dia 15 de agosto de 2021 marcou a data em que o Talibã reassumiu o poder após o governo eleito fugir do país. A tomada foi surpreendentemente rápida. Entretanto, é possível que no final, nada mude muito, afinal o Afeganistão não sabe o que é paz há mais de 40 anos. Em meio a esse conflito religioso, a vida diária é desafiadora para homens e mulheres cristãos, que são forçados a viverem a fé em segredo.


Outro exemplo é a Nigéria e os países do Oeste Africano, que desde 2002 sofrem com ataques do grupo extremista islâmico Boko Haram. A Nigéria, que é dividida em Norte muçulmano e Centro-sul cristão, é palco de um dos maiores conflitos religiosos da atualidade. Além disso, outro conflito religioso no Cinturão Médio do país é entre agricultores cristãos e extremistas fulani, que são muçulmanos radicais. Esses já causaram mais mortes de cristãos que o próprio Boko Haram. 


Na Índia, radicais hindus se mobilizam com muita força para declarar o hinduísmo como religião nacional. Os direitos de todas as categorias de comunidades cristãs são violados no país já que radicais hindus os veem como alienados à nação. Eles querem limpar o país do islamismo e do cristianismo e não se esquivam de usar a violência para isso. 


A ocupação do autoproclamado Estado Islâmico no Iraque e Síria foi um claro ataque contra as minorias cristãs de ambos os países. No Iraque, desde a derrota territorial do Estado Islâmico, a principal fonte de pressão aos cristãos são as milícias xiitas apoiadas pelo Irã. Entretanto, o Estado Islâmico também intensificou seus ataques a civis, infraestruturas e forças de segurança em 2020 e 2021. Já na Síria, as comunidades cristãs enfrentam vários desafios no contexto do conflito atual, que já dura mais de dez anos. Em todas as áreas há forte pressão familiar e social contra aqueles que optam por deixar o islã e, em casos extremos, essas respostas são violentas. 


Ideologias x religião 


Mesmo após a queda da antiga União Soviética, a religião permaneceu nos países da Ásia Central


A religião é frequentemente criticada sob o argumento de que a maioria das guerras surge a partir de conflitos religiosos, tensões e discordâncias confessionais. Isso pode ter sido verdade nos séculos passados (embora tal afirmação seja extremamente discutível), mas certamente não foi o caso no último século, quando a religião passou a ser violentamente perseguida por ideologias temporais.


Comunismo, fascismo, socialismo e nacionalismo encararam a religião como a maior ameaça ao projeto de criar novas sociedades. Em muitos casos, a religião era um importante acessório do regime que os revolucionários desejavam derrubar. A partir disso, teve início uma investida sem precedentes contra edifícios religiosos, clérigos e fiéis.


Com o colapso das ideologias e a recuperação de muitas religiões em várias partes do mundo, houve um grande aumento na violência, ataques e guerras por motivação religiosa. O marxismo afirma que, com o advento do socialismo e do comunismo, “a religião definharia e morreria”. Na realidade, o que ocorreu foi o inverso: as ideologias definharam, ainda que ao custo de dezenas de milhões de vidas. A religião sobreviveu e constituiu a inspiração para muitos movimentos de resistência que ajudaram a derrubar tais ideologias.


Da Igreja Católica na Polônia aos budistas no Camboja, passando por muçulmanos na Ásia Central e luteranos na Alemanha Oriental, a religião permaneceu mesmo após a queda de regimes coercitivos. Em muitos países, embora não tenha mais o mesmo papel que antes da perseguição e mudanças sociais, a religião voltou ao centro do palco para tentar desempenhar novamente um papel na construção e manutenção das nações, povos e culturas.


Perseguição sem precedentes


Na China, desde a Revolução Cultural, o cristianismo é perseguido de forma intensa e agressiva


A violência experimentada pelos cristãos, contudo, não vem apenas por conta de conflitos religiosos. Nos últimos 100 anos, as principais religiões foram mais perseguidas do que em qualquer outro período histórico. Na maioria dos casos, não se trata apenas de uma religião perseguindo a outra, mas de uma ideologia que persegue uma religião.


Isso abrange desde as investidas da revolução socialista de 1924 no México contra o poder, as terras, o clero e os edifícios da Igreja Católica, até as agressões aos bahaístas no Irã, a partir da década de 1970. Também podemos ver isso na repressão a todas as religiões na URSS, o extermínio dos judeus no nazismo e a agressão maciça a toda religiosidade na China da Revolução Cultural.


Infelizmente, as zonas de tensão se mantêm. A medida que as religiões se recuperam da perseguição, alguns reiniciam suas próprias perseguições. Entretanto, o tempo e a vivência dos últimos 100 anos somados ao impacto dos movimentos ecumênicos e multiconfessionais, deram início a mudança em muitos grupos religiosos. Nesses casos, as velhas divisões e inimizades acabaram.


Divisões históricas, várias delas com séculos de existência, criadas por diferenças na crença e prática religiosa, são a origem de muitas tensões e conflitos religiosos atuais. A tensa linha divisória entre o islã e o cristianismo na Europa Oriental e Cáucaso é ilustrada pela controversa candidatura turca à União Europeia. E a cisão entre católicos, luteranos e russo-ortodoxos ainda repercute na Europa e na Rússia.


Algumas linhas divisórias, como o litoral suaíli (África Oriental), se tornaram mais regiões de diferença cultural que fontes de tensão. Já outros choques, muito antigos, como entre cristãos, hindus e muçulmanos na Indonésia, ressurgiram onde, poucos anos atrás, essas comunidades viviam lado a lado.


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