O que estamos fazendo com a nossa liberdade?

Por Gerson Borges, músico, educador, tradutor e pastor da Comunidade de Jesus no ABC Paulista

| 10/03/2022 - 08:00

Cristãos da Ásia Central gostariam de se reunir livremente para adorar a Jesus, mas isso só é possível em algumas igrejas registradas pelo governo, como esta

Cristãos da Ásia Central gostariam de se reunir livremente para adorar a Jesus, mas isso só é possível em algumas igrejas registradas pelo governo, como esta


Há alguns anos, fiz uma viagem missionária em parceria com a Portas Abertas que incluiu Turquia, Albânia e Ásia Central (por motivos de segurança, prefiro não especificar os países). Ministrei tanto em cultos de igrejas oficiais quanto em reuniões da Igreja Perseguida. Em ambos, tive o sentimento que pode ser muito bem resumido na pergunta que dá título a esse pequeno artigo: o que estamos fazendo com a nossa liberdade religiosa no Brasil? Muitas são as possíveis respostas — a primeira delas é, sem dúvida, pouco caso ou desprezo. Banalização.

Sim, ainda estamos em tempos pandêmicos mas, como pastor, me entristeço quando percebo que a necessidade de celebrações online por motivos de segurança sanitária para muitos tem se tornado uma conveniência perigosa. Se nos momentos críticos da COVID-19 falamos “fiquem em casa”, agora devemos dizer o contrário: “Não fiquem em casa! Voltem para a ‘igreja’!” (igreja entre aspas porque no Novo Testamento em nenhum momento a igreja de Cristo é descrita como um prédio, mas sempre como uma reunião daqueles que confessam, como Simão Pedro, em Mateus 16, que Jesus de Nazaré é o Cristo). É preciso valorizar de verdade a liberdade que temos — tanto religiosa quanto de reunião. A liberdade religiosa é garantida pela Constituição de 1988 e está descrita em seu artigo 5º, inciso VI:

“É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”.

Ou seja, no nosso amado Brasil, um Estado democrático de direito, todos os seus cidadãos e estrangeiros que aqui residem têm liberdade para escolher sua religião, praticar e professar sua fé seja no privado ou em público. O governo brasileiro não pode nos impedir de adotar uma ou outra confissão de fé. Liberdade religiosa, um direito humano!

Ah, como os irmãos que conheci na Ásia Central desejam essa cidadania! Ah, como gostariam de se reunir onde, quando e como quiserem — dentro dos limites da paz pública — para adorar ao Cristo ressurreto, mas não podem. Em muitos dos países do ranking de maior perseguição que a Portas Abertas publica a cada ano (a Lista Mundial da Perseguição), eles não fazem ideia do privilégio que nos é assegurado em um país democrático e que respeita os direitos humanos como o Brasil.

No entanto, tem crescido consideravelmente o número de “desigrejados” ou os “sem igreja”, gente que acha possível viver a fé cristã — essencialmente comunitária, porque o Deus da Bíblia é uma eterna comunhão de amor entre Pai, Filho e Espírito Santo — ensimesmados, em casa, diante da tela do YouTube, desprezando a comunhão cristã e essa benção que é a liberdade de crença e religião. Gente precisa de gente! Crente precisa de crente! O autor da carta aos Hebreus nos admoesta: “Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns” (Hebreus 10.25).  A pergunta continua ardendo nos nossos ouvidos e corações: o que estamos fazendo com a nossa liberdade?

Ao celebrarmos os 465 anos do primeiro culto protestante no Brasil, vendo igrejas que se esvaziaram e que se esvaziam — não mais por medo de contágio de COVID-19 mas por pura frieza, comodismo e desprezo à preciosa liberdade que usufruímos — desde então, na nossa pátria, lembro das palavras de William Wiberforce, político cristão evangélico que lutou pelo fim da escravidão africana na Inglaterra:

“O Cristianismo, especialmente, sempre prosperou sob perseguição. Nessa época, não possuía fiéis mornos. Quando a Religião está em um estado de quietude externa e prosperidade, o contrário de tudo isso ocorre naturalmente. Os soldados da igreja militante se esquecem, então, que estão em estado de guerra. Seu entusiasmo diminui, seu zelo definha.”

Como brasileiro e como um cristão evangélico eu insisto, ecoando esse homem de Deus: não vamos permitir que a prosperidade e o crescimento da igreja brasileira tornem morno o nosso coração a ponto de desprezar a liberdade religiosa tão cara (e invejada!) que temos.


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