Rebeldes ameaçam arcebispo após assassinato de um clérigo em 29 de dez

| 14/01/2004 - 00:00


Rebeldes contrários ao governo do Burundi ordenaram ao arcebispo católico romano, Simon Ntamwana, que saia do país dentro de 30 dias ou corra o risco das conseqüências.

A ameaça de morte chegou dias depois que Ntamwana acusou as Forças de Libertação Nacional (FLN) de terem assassinado o embaixador do Vaticano, Michael Courtney em uma emboscada no dia 29 de dezembro cerca de 50 quilômetros da capital, Bujumbura. Courtney voltava de um funeral em seu veículo claramente identificado como diplomático.

Consideramos a ameaça séria, mas o arcebispo não pode deixar o país, disse Gabriel Beregensabe, secretário geral da Conferência dos Bispos Católicos do Burundi. Tem ocorrido outras ameaças contra o líder do mais alto escalão do diminuto país centro-africano, mas ele disse que esta era a primeira vez que uma delas vinha a público.

Estas ameaças não forçarão os bispos a sairem. Precisamos ficar atentos e também deixar claro que esta não é a maneira de conseguir a paz em nosso país, disse ele em uma entrevista por telefone à Portas Abertas.

As FLN negaram qualquer responsabilidade na morte de Monsenhor Courtney, que foi enterrado na Irlanda, sua terra natal, no dia 3 de janeiro. O porta-voz das FLN, Pasteur Habimana foi citado em uma reportagem das Redes Regionais Integradas de Informação, da ONU (IRIN) como tendo dito que o seu movimento não tinha nada contra a Igreja Católica. Apenas somos contra Ntamwana como pessoa por ter-nos acusado sem qualquer prova, em vez de esperar pelo inquérito, disse ele.

Baregensabe lembrou que o antecessor de Ntamwana, o arcebispo Joachim Ruhuna de Gitega, foi morto em 1996 sob circunstâncias semelhantes à emboscada que tirou a vida de Courtney, 58, o núncio papal.

Monsenhor Courtney morreu na mesa de operação de um hospital em Bujumbura depois de ser atingido na cabeça acima do ouvido direito, no peito e em um dos membros, por disparos de atiradores de uma colina próxima.

Ao mesmo tempo em que expressou suas condolências à família enlutada e à comunidade católica, o presidente burundinês, Domitien Ndayizeye responsabilizou pelo assassinato o grupo das FLN/Palipehutu de Agathon Rwasa - o único grupo dissidente que não assinou o processo de paz no Burundi.

Enquanto isso, o bispo Bernard Bududira, da província sulista de Bururi, também acusou as FLN/Palipehutu de ter realizado o ataque. Não há dúvida, é a FLN, disse ele à Rádio Burundi, acrescentando: No sábado e no domingo, (os rebeldes) atacaram Minago, e recebemos informações de moradores a quem foi dito para saírem da área porque ele estaria operando lá naqueles dias.

Monsenhor Courtney era muito conhecido como pacificador por todos os lados do conflito civil. Os hutus combateram a minoria tutsi desde 1993. Os tutsis dominaram o poder militar e político no país de quase 7 milhões de habitantes. Através de seu porta-voz, o secretário geral da ONU, Kofi Annan, elogiou a maneira silenciosa e eficiente pela qual o monsenhor esteve ajudando o processo de paz no Burundi.

Monsenhor Courtney foi um homem que teve contato com todos pela paz, disse Baregensabe, inclusive as FLN - através de uma diplomacia discreta - e ele morreu como mártir.

Na esteira do assassinato e da declarada ameaça contra o arcebispo, a igreja redobrará seus esforços pela paz, acrescentou Baregensabe, observando que existe contato entre membros da Igreja Católica e as FLN. Os cristãos no Burundi dizem: não a toda violência desta natureza.

Nascido em 1945 em Nenagh, County Tipperay, Michael Courtney foi ordenado sacerdote com a idade de 23 anos e entrou para o serviço diplomático da Santa Sé em 1980. Serviu na África do Sul, Senegal, Índia, Yugoslávia, Cuba e Egito. Em 1995 foi nomeado enviado especial da Santa Sé para o Conselho da Europa em Estrasburgo, na França, e João Paulo II o nomeou núncio apostólico no Burundi em 2000. Monsenhor Courtney deveria deixar o Burundi logo para assumir uma nomeação em Cuba.

Uma semana depois da morte de monsenhor Courtney, as FLN concordaram em encerrar o boicote ao processo de paz do pais e participar das conversações com o presidente. Estima-se em 300 mil as pessoas mortas na guerra civil do país, o que ajudou a desestabilizar a sub-região durante uma década.


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