Adolescente cristã vai a julgamento por assassinato

| 19/12/2006 - 00:00


Uma jovem iraquiana de 14 anos convertida ao cristianismo enfrenta acusações de assassinato por esfaquear seu tio, no norte do Iraque.
 
Asya Ahmad Muhammad está sendo acusada na Corte Juvenil da cidade de Dohuk por cravar uma faca de cozinha no peito de seu tio, em julho passado, depois de ele ter começado a bater na adolescente, na sua mãe e no irmão mais jovem.
 
A família do morto alegou a necessidade de restaurar a "honra", supostamente perdida, porque suas parentes estavam trabalhando fora, o que levou o ataque de Sayeed Muhammad contra os membros da família de seu irmão. Mas, o advogado de defesa da menina cristã afirmou que o motivo verdadeiro do ataque foi religioso.
 
"O ataque contra Asya Muhammad e sua mãe foi causado pela família de Sayeed Muhammad por estar irritada com o pai da jovem por este ter se tornado um cristão", contou o advogado Akram Mikhael Al-Najar ao Compass. "Esta jovem é inocente e é vítima da mentalidade terrorista das pessoas que a acusam. O fundamento da mentalidade terrorista é para eles é a única religião".
 
O advogado de Asya Muhammad e a família direta dela disseram que a menina agiu em defesa própria e não tinha intenção de matar Sayeed Muhammad.
 
O pai de Asya Muhammad se converteu ao cristianismo enquanto trabalhava em Beirute, em 1998. Ao retornar ao Iraque em dezembro de 2002, Ahmad Muhammad começou a compartilhar sua fé com sua família.
 
O pai do convertido, um clérigo muçulmano, ficou irado quando a esposa de seu filho, a filha e um filho do casal foram batizados em 2003.
 
"Meu irmãotentou me matar por cinco vezes desde 2002", contou Ahmad Muhammad. "Ele tentou me matar quatro vezes e uma vez ele queimou a minha casa. Perdi minha casa, meu carro e agora minha família".

Fatalidade
 
Em 9 de julho, Sayeed Muhammad foi à loja de utensílios de cozinha do seu irmão cristão, em Mansouria, nos arredores de Dohuk, dizendo que queria dar a suas parentes uma lição pela vergonha que elas estavam causando por estarem trabalhando fora.
 
"Não é lei, mas naquela região, a maneira que as pessoas vêem as coisas é que as mulheres não deveriam trabalhar em público", disse o advogado Al-Najar.
 
Ahmad Muhammad, o pai da menina, não estava na loja quando seu irmão, pai e primo chegaram.
 
Sayeed Muhammad começou a agredir a esposa de seu irmão, Mayan Jaffar Ibrahim, e feriu o rosto dela com uma faca, segundo um relatório médico. Envergonhada, Mayan então fugiu da loja e correu para casa, contou o advogado Al-Najar.
 
Como Mayan foi embora, Sayeed Muhammad atacou Asya e o irmão mais jovem dela, Chuli.
 
Lutando para se desvencilhar de Sayeed Muhammad, enquanto ele cortava seu cabelo, a garota alcançou com a mão direita uma das facas da loja, que estava atrás dela, e, instintivamente, atingiu o seu tio, contou Al-Najar. A faca atingiu seu coração, matando-o quase que instantaneamente.
 
Olho por olho

Desde então, Asya Muhammad está detida na prisão juvenil de Dohuk, recebendo visitas de seu advogado e de cristãos locais, duas vezes por semana.
 
Com os parentes exigindo a morte de Asya Muhammad, como compensação do assassinato, Ahmad Muhammad, sua esposa e os seus três filhos foram forçados a fechar o negócio, se separar e se esconder. Um quarto filho, com pouco mais de 20 anos, vive com o pai de Ahmad Muhammad.
 
Inicialmente, a mãe de Ahmad exigiu que seu próprio filho fosse morto como compensação pela morte de seu irmão, contou uma fonte próxima da família.
 
"Um parente os convenceu que Ahmad não tinha nada a ver com a morte e que, na verdade, eles precisavam matar a menina", disse a fonte. "Eles também estão exigindo 50 mil dólares como resgate de sangue".
 
A fonte informou que Ahmad tentou oferecer aos parentes uma compensação monetária, mas eles recusaram a atitude, dizendo que seria incompleto, a não ser que a filha deles fosse morta.
 
"Aqui é normal para um pai ou um tio bater na sua filha ou sobrinha e ninguém pode dizer nada sobre isto", comentou um cristão, explicando porque os parentes não acreditam que Asya teria o direito de se defender. "A reaçãofoi considerada grande demais para a ação do tio".
 
Embora os advogados de acusação exigissem a pena de morte para Asya, afirmando que a morte foi premeditada, o advogado de defesa Al-Najar disse que acredita que a sua cliente tem um argumento convincente.
 
"Ela estava no local de trabalho de seu pai quando seu tio foi lá por uma razão especial, agrediu a mãe dela e, então, a atacou", disse Al-Najar, resumindo seus argumentos. "Ela agiu em defesa própria. Além disso, ela é menor de idade e não pode ser legalmente executada".
 
Se a corte, subordinada ao juiz Satar Sofe, aceitar os argumentos da defesa, disse o advogado, Asya será libertada com supervisão parcial ou mantida em um centro de reabilitação juvenil por até sete anos.
 
Evolução nos direitos

Muçulmanos que deixam sua religião tradicionalmente enfrentam oposição dentro da sociedade curda, mas, nos últimos anos, o governo tem paulatinamente tomado medidas para assegurar os direitos dos convertidos.
 
Os cristãos curdos declaram sua fé e constroem igrejas abertamente, informando ter mínimas dificuldades com o governo.
 
No ano passado, a igreja capturou um agente terrorista islâmico que tinha matado o ex-muçulmano Mansour Hussein, em Arbil, há mais de nove anos, por causa de sua conversão ao cristianismo. As autoridades condenaram e executaram o assassino de Mansour nesta primavera. O governo regional está pagando agora estudos em uma escola de inglês de elite para o filho do mártir.
 
"Na verdade, o governo tem tomado estas atitudes para proteger os convertidos", comentou um dos cristãos que mora em Arbil, na capital da região curda. "Conforme minha experiência, as cortes aqui têm sido justas com todas as pessoas de diferentes origens".
 
Entretanto, questões relativas à liberdade religiosa ainda não foram estabelecidos por completo, já que os líderes do norte do Iraque continuam insistindo em uma constituição regional.
 
"No Curdistão, muitos muçulmanos mudaram de religião para o cristianismo", comentou o advogado Sardar Kawany, membro do Sindicato de Juristas Curdos e editor do jornal do sindicato "Legal Thinking". O grupo trabalha para o governo como consultor jurídico independente e educa o público geral sobre assuntos de direitos humanos.

"Uma pessoa deve mudar de religião em seu coração e chegar ao ponto de mudar sua identidade legalmente de identidade", disse Kawany. "Mas, não há maneira de se chegar a esse ponto".
 
O advogado Al-Najar disse que concordava em defender o caso de Asya Muhammad gratuitamente, acreditando ser importante para a liberdade religiosa. "Cada pessoa nasce livre, com o direito de escolher sua própria religião", comentou o advogado. "Tenho adotado essa convicção neste caso".
 
Para Ahmad Muhammad, este assunto é mais concreto: ele quer ver sua filha retornar ao cuidado dele e de sua esposa. Ele contou ao Compass por telefone que, durante sua última visita à prisão de sua filha, ela lhe pediu: "Pai, por favor, ore por mim".


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