Missionário morto no Timor Leste trabalhava pela paz no país

| 24/11/2006 - 00:00


A morte do missionário brasileiro Edgar Gonçalves Brito, no último domingo, alcançou grande repercussão no noticiário nacional e internacional. Embora ele não tivesse qualquer vínculo com a Portas Abertas, cumprimos aqui nosso dever de informar e nos solidarizamos com a família e os amigos da vítima dessa tragédia que chocou tanto a comunidade brasileira no Timor Leste, como os brasileiros em geral, especialmente a comunidade cristã.

A seguir, você vai ler os acontecimentos do dia do crime contados por uma amiga de Edgar no Timor Leste. Em seguida, publicamos uma carta que o missionário escreveu aos amigos no Brasil, em 12 de outubro, falando de sua preocupação com os jovens do Timor e de seu desejo de fazer algo para tirá-los da esfera de violência em que, segundo ele, se encontravam. Divulgamos ainda uma mensagem escrita por Elizama Brito, irmã da vítima e também missionária, que estava presente no momento do assassinato. Na carta, dirigida ao povo do Timor Leste, Elizama fala da dor da perda de seu irmão e também clama por paz e perdão para aquele país.

Domingo dramático

O missionário brasileiro Edgar Gonçalves Brito morreu defendendo a irmã e três meninas timorenses do ataque de um grupo enfurecido, que apedrejou o carro em que circulavam, perto do Hospital Nacional Guido Valadares, em Díli. Edgar tinha saído de uma reunião de oração no domingo, por volta das 21 horas, hora local, com a irmã - a também missionária Elizama - e três meninas timorenses.

Ao chegarem próximo à rua onde moram, passando pelo bairro de Akadiri Hun, tiveram o carro interceptado por gangues de timorenses exaltados, alcoolizados, que obrigaram o grupo a parar, conta outro brasileiro que socorreu o grupo no hospital, Ivanildo Quirino do Nascimento. Os desordeiros gritavam: Morte aos australianos. Não queremos australianos no Timor! Dentro do carro, os irmãos tentavam acalmá-los, dizendo: Não somos australianos, somos brasileiros!, relata Ivanildo.

Segundo o embaixador do Brasil, José Antonio Sousa e Silva, durante todo o dia tinham ocorrido distúrbios nessa rua. O grupo não ouviu os brasileiros, atacando o carro com paus e pedras, quebrando todos os vidros, ferindo uma das meninas e tentando arrancar Elizama pela porta. Enquanto discutia com os agressores e tentava ir embora, Edgar foi atingido no pescoço por uma espécie de espada pontuda, que deixou um ferimento profundo. Um homem veio, enfiou a arma no pescoço do missionário brasileiro e arrancou em seguida. Foi então que ele pisou no acelerador e fugiu do local.

Embora sangrando muito, Edgar conseguiu dirigir mais algumas centenas de metros, até desmaiar no volante. O carro continuou andando sozinho. Apavorada, Elizama desceu do carro e começou a gritar por socorro. A essa altura já estavam próximos da casa de outro brasileiro, Marcos Tadeu Clemente, amigo de Edgar.

Tadeu conseguiu colocar o ferido no banco de trás e foi buscar socorro no Hospital Guido Valadares. A 20 metros da entrada, encontrou o mesmo grupo que tinha atacado os brasileiros. Eles estavam bloqueando o caminho com pneus incendiados, paus e pedras. Reconhecendo o carro, correram para atacar novamente. Tadeu manobrou e levou Edgar sangrando à clínica do dr. Daniel, no Bairro Pité, do outro lado da cidade.

Edgar já chegou morto à clínica do médico americano, que trabalha como voluntário no Timor desde 1998 e é amigo dos brasileiros. Elizama costuma trabalhar com ele como enfermeira.

Elizama e Tadeu estão em estado de choque, sob efeito de tranqüilizantes. O primeiro-ministro do Timor Leste e ganhador do prêmio Nobel da Paz, José Ramos Horta, visitou Elizama na tarde de segunda-feira, mas ela mal podia falar. O carro está sendo submetido a uma perícia pela polícia da ONU. Segundo o embaixador do Brasil, o corpo só passaria pela autópsia quando a data do repatriamento para o Brasil fosse marcada.

A versão de que Edgar teria sido morto a tiros surgiu pelo fato de que, quando o corpo foi examinado pelo dr. Daniel Murphy, o médico constatou visualmente, sem equipamentos, um ferimento arredondado e profundo, que parecia ser de bala. Elizama, em estado de choque, não estava em condições de contar o que aconteceu de forma coerente.

Missionário queria ensinar aos jovens
outra linguagem que não a da violência

Em uma de suas últimas cartas aos amigos no Brasil, datada de 12 de outubro, Edgar Brito analisava a situação no Timor:

Neste momento que estamos vivendo, é triste ver os jovens timorenses envolvidos em grande parte dos conflitos, embora eles não sejam os responsáveis por tudo de mau que está acontecendo. A geração que está queimando casas, saqueando lojas, enfrentando a polícia, brigando nas ruas e se auto-destruindo de diferentes formas é a mesma que viu o Timor lutar pela libertação do domínio indonésio. O referencial que essa geração carrega é de violência. Eles foram expostos à violência quando crianças, e agora repetem essa mesma violência contra eles próprios."

O sonho de Edgar era quebrar esse ciclo e ensinar a linguagem do diálogo e da paz:

"Diante dessa triste realidade, Deus tem colocado em meu coração o sonho de termos mais uma casa lar. Só que agora, voltada para os jovens. Esses jovens teriam um lar, onde receberiam não apenas o alimento para sobreviver, mas principalmente os princípios cristãos, expressos diariamente, em pequenos reflexos da grandiosa graça de nosso Deus, manifestada em nossas atitudes práticas. Essa casa não seria um seminário, com a sistematização dos conteúdos bíblicos. Seria um ambiente familiar, em que a teoria tão insistentemente falada, daria lugar à prática de vida, levando-os a entenderem, numa perspectiva integral, a espiritualidade cristã.

Além disso, eles receberiam apoio, acompanhamento e incentivo em seus estudos, criando uma geração de pessoas com formação adequada e intimidade profunda com Deus, capazes de, em um futuro próximo, influenciarem diferentes áreas da nação.

Nesse momento, esse projeto é apenas um sonho. Mas eu quero convidá-lo a orar junto comigo, para que Deus traga esse sonho à existência, se essa for a sua vontade.

Carta ao Timor Leste

Um soldado tombou em combate.

Meu coração está muito triste. Sou missionária e enfermeira brasileira e tenho, desde 2003, ajudado ao povo timorense na área de saúde física e mental, no apoio espiritual e junto às famílias.

Nesse exercício cristão, conheci várias famílias timorenses, em várias aldeias, compadecendo-me com as vidas e identificando-me com os problemas do país.

No meu trabalho, tinha o apoio de outras pessoas, amigos evangélicos de diversas tendências e também de outras crenças que nos ajudavam, pois acreditavam que o apoio que dávamos às pessoas era uma dádiva de Deus. Essa dádiva que me foi dada cresceu dia após dia, até o momento em que eu recebi o meu irmão em Timor Leste para ajudar-me nas atividades desta missão.

Continuei auxiliando aos timorenses doentes com medicamentos, conselhos e encaminhamentos ao Hospital Nacional Guido Valadares. Os muitos casos de doenças graves, que eram desenganados pelos médicos, foram milagrosamente resolvidos por Deus, pois acreditei que a graça de Deus sobre Timor era tão especial quanto em qualquer outro país.

Edgar, meu irmão, chegou em Timor em abril de 2005, ajudando-me nas atividades de saúde, educação e aconselhamento familiar. Ele tinha sonhos, fazendo-os acontecer a cada dia, no seu vigor de jovem cristão.

Uma escola pré-primária foi aberta por Edgar, no Suco de Buicareu, em Viqueque, apoiando e beneficiando a mais de 50 crianças.

Edgar também me ajudou no desenvolvimento do projeto de construção de uma casa de apoio às crianças, jovens e idosos em Bidau Santana. Esse projeto não pôde ser concluído, porque tiraram a vida do meu irmão. Mataram um valente soldado da paz!

Edgar era como um soldado, destemido e com coragem de lutar sempre pela causa do Senhor, o Deus Todo-poderoso.

Ele, como soldado, foi tombado, mas sua memória, sua mensagem, jamais será esquecida, pois o amor dele, como o meu amor para com o povo timorense, ninguém pode matar.

Hoje e por muitos dias estou triste, muito triste com o assassinato do meu irmão, mas quero clamar pela paz e perdão em Timor Leste.

Que a paz e o perdão estejam sobre o Timor Leste.

Elizama Gonçalves Brito
Missionária brasileira em Timor Leste
Irmã de Edgar Gonçalves Brito, primeira vítima internacional da violência em Timor Leste


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