Polícia iraniana prende e multa quem não se veste como islâmico

| 31/05/2006 - 00:00


"Nós já advertimos e educamos 32 mil mulheres e 64 homens por causa de suas vestimentas e comportamento", afirmou o chefe de polícia de Teerã, Morteza Talaei. Ele disse isso no dia 23 de maio, prestando contas dos primeiros trabalhos das Patrulhas de Direção Policial (polícia religiosa), introduzida na capital iraniana.

Ao todo, 7 mil lojas foram visitadas e 190 foram multadas por vender "roupas e utensílios não-islâmicos". De forma mais rígida, 230 carros foram confiscados por "estarem causando problemas com mulheres", segundo Morteza. Isso provavelmente quer dizer que havia mulheres usando parte do véu em um espaço considerado público pela lei islâmica. Morteza também falou de 164 pedestres presos pelos mesmos motivos: 119 mulheres e 45 homens.

Dessa forma, mais de 32 mil pessoas conseguiram entrar nas exigências do regime, ou têm outro apontamento ruim em registros pessoais. No entanto, Teerã tem 12 milhões de habitantes. A equipe das Patrulhas de Direção, com dezenas de pessoas, não será suficiente para erradicar qualquer resistência contra a islamização total do vestuário.

Os esforços policiais seguem as ordens dos "bassij" ("voluntários islâmicos revolucionários, que já somam um milhão no Irã). A polícia religiosa causa um impacto limitado, mas ela contribui para o bloqueio ou desaceleração da evolução social. Além disso, a polícia religiosa cria um clima constante de medo e auto-censura.

Esses esforços parecem ser ridículos e escandalosos para muitos moradores de Teerã, que acham que as autoridades e a polícia devem se preocupar mais com o tráfego.

Em Teerã, o problema não são as mulheres sem véus nos carros, mas os próprios carros. Em uma cidade quase sem transporte público, com um trafego caótico, pistas defeituosas e poluição, as conseqüências são dramáticas: 27 mortos por dia (estatísticas oficiais) só por causa da poluição do ar.

Véu para visitantes

O desejo de voltar às origens da Revolução Islâmica e esquecer as reformas de Khatami - embora bem limitadas - não é o único programa político de Ahmadinejad. O parlamento iraniano, que bloqueou muitas propostas de seu predecessor, continua a trabalhar na "vestimenta nacional islâmica". Essa lei, acompanhada por medidas comerciais, deve dar mais força e clareza ao trabalho das Patrulhas de Direção.

O jornal "New York Post", de 20 de maio, publicou notícias preocupantes sobre a proposta lei iraniana sobre roupas. Quando foi dito que a lei em debate incluía medidas para roupas ou emblemas distintivos para judeus, cristãos e zoroastristas, Amir Taheri continuou: "Os muçulmanos devem ser capazes de identificar os não-muçulmanos e de não lhes estender a mão por engano".

Essa afirmação está baseada em um fato histórico: houve de fato roupas especiais para as minorias na Idade Média dos muçulmano-árabes e dos cristão-europeus. Entretanto, a lógica da atual República Islâmica Iraniana não é de criar, antes de tudo, guetos e regras especiais para os cidadãos não-muçulmanos, de segunda classe. É o contrário: todos devem seguir as leis islâmicas - inclusive véus para as mulheres que estão visitando o país, até para as ministras - e dar a impressão de "normalidade" e "universalidade" da civilização muçulmana, conforme definida pelos mulás.

Em uma sociedade jovem como o Irã, se um uniforme for imposto a todos, a existência de emblemas distintivos pode dar a idéia de movimentos dissidentes. É claro, no entanto, que os interesses do sistema iraniano estão na imposição de uma "normalidade islâmica", sem exceção, com uma escolha de roupas decentes e neutras para homens e mulheres.

Mas se a idéia adiantada por Amir se concretizar, o risco maior e mais imediato, para o regime iraniano, pode naturalmente ser a provocação de uma raiva legítima do resto do mundo, especialmente nos lugares onde as memórias do nazismo permanecem fortes.

A declaração de Amir publicada no "New York Post" está ajustada com os temores criados quando o presidente do país negou o holocausto. Impor emblemas e roupas especiais para os judeus e outros grupos seria outra razão para comparar Ahmadinejad com Hitler; os bassij, à Juventude Hitlerista, e o exército paralelo dos Guardiões da Revolução, à Gestapo. Esse paralelismo já é usado nos discursos entre os conservadores dos EUA e os líderes israelenses. É uma visão que serve, sem dúvida, para justificar uma atitude forte contra o Irã, ou até uma intervenção militar.

Para alguns parlamentares iranianos, o aspecto racista e provocativo dessa lei discriminatória poderia ser um argumento a favor e não contra o país. Alguns, na verdade, esperam que a tensão aumente, chegando aos riscos de invasão militar.


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