Incêndio em igreja marca um ano de tensão entre budistas e cristãos

| 11/04/2006 - 00:00


Uma multidão enfurecida ateou fogo a uma igreja numa região remota de Bangladesh, em 30 de março, completando um ano de extrema hostilidade entre aldeões que se converteram do budismo ao cristianismo.

Bangladesh é um país de maioria muçulmana, mas o budismo cresce aos poucos em localidades como Pancchari, onde ocorreu esse ataque. Pancchari é um subdistrito de Khagrachhari, em Chittagong, colina situada ao sul do país.

Imediatamente após o ataque, um contingente do exército foi destacado para a vila de Kinamonipara, em Pancchari, para evitar que houvesse mais violência, de acordo com a imprensa local.

Um ano de hostilidade

As tensões entre budistas e cristãos aumentaram em Pancchari durante todo o ano passado.

A situação se tornou crítica quando os líderes budistas convocaram um encontro, em 22 de abril de 2005, logo depois de uma cerimônia de batismo cristão, ocorrida em 15 de abril. Durante o encontro, foi dito aos aldeões budistas para que não falassem com os que se converteram ao cristianismo, nem negociassem com eles no mercado da vila, e que boicotassem eventos sociais como casamentos e funerais em que os cristãos estivessem presentes.

Um mês depois, em 22 de maio, os líderes budistas enviaram cartas para todos os chefes de família cristãos em Knamonipara, convidando-os para outro encontro na vila. Na ocasião, os líderes budistas agrediram verbalmente os cristãos, prometendo violência se eles não abandonassem a fé cristã e retornassem ao budismo.

Como os cristãos se recusaram, os budistas decidiram tratá-los como párias. Nenhum aldeão tinha permissão para efetuar transações de compra ou venda de produtos agrícolas com cristãos. Os budistas disseram aos proprietários de moinhos de arroz e de tratores para não emprestar ou alugar seus equipamentos aos cristãos. Essas sanções foram o maior golpe financeiro para os cristãos, que eram pobres demais para adquirir suas próprias ferramentas agrícolas.

As autoridades budistas também tentaram, sem sucesso, expulsar os líderes cristãos do comitê local do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (UNDP, sigla em inglês), na esperança de que isso tornasse mais difícil para os cristãos receber ajuda do UNDP. Essa tentativa de restringir a ajuda para os cristãos ainda continua.

Ameaça de morte

Quando um terceiro encontro foi convocado para o dia 27 de maio, os cristãos que tentaram comparecer foram impedidos. Um aldeão simpatizante dos cristãos deixou vazar a informação de que o líder da área, Bagya Chakma, ameaçou matar Uzzal Kanti Chakma, o pastor da Igreja Presbiteriana de Kinamonipara.

O pastor Uzzal conseguiu escapar antes que 12 homens atacassem sua casa às 10 horas da manhã do dia 28 de maio. Quando os aldeões descobriram que ele não estava presente, retornaram no dia seguinte e ameaçaram cortar a esposa do pastor com uma espada.

O pastor então abordou os membros do conselho local, que disseram que não podiam oferecer segurança para a comunidade cristã. Alguns cristãos fugiram da região, temendo por sua segurança.

Outra igreja próxima a Choungrachari Mukh Nikonja Karbaripara foi atacada em 3 de junho. Os líderes budistas assistiram ao espancamento de dois cristãos, Gyan Ratan e Ananda Joy. Um terceiro cristão, Kripa Ranjan, começou a chorar e escapou de ser agredido.  Os agressores exigiram que cada um pagasse uma multa de 5 mil taka (71 dólares) e que retornassem ao budismo antes do dia 10 de junho ou a pequena comunidade cristã da vila seria desarraigada.

Os cristãos pagaram a multam e obtiveram permissão para permanecer na vila sem abandonar sua fé, mas eles vivem com medo de outro ataque.

Fontes cristãs da capital, Dhaka, disseram que a tensão se deve, pelo menos em parte, ao fato de que os líderes budistas perderam as taxas templárias que eram pagas pelos aldeões que se converteram ao cristianismo.

Eles também disseram que os cristãos de Pancchari foram avisados para não entrar em contato com autoridades superiores ou eles enfrentariam uma perseguição ainda maior. Os aldeões cristãos feridos durante espancamentos eram avisados para não procurar tratamento hospitalar ou eles apanhariam novamente na volta para casa.

Choque entre quatro religiões

O povoado muçulmano de Chittagong extrapolou a tensão entre cristãos e budistas. Um pequeno número de hindus da vizinha Tripura, nordeste da Índia, também se estabeleceu na região.

Numa tentativa de sujeitar a imensa densidade populacional em regiões de baixada, o governo de Bangladesh distribuiu grandes porções da colina para os muçulmanos a partir de 1976, ignorando o fato de que os aldeões possuíam aquelas terras há séculos.

Os colonizadores muçulmanos ocuparam as terras concedidas pelo governo e invadiram o território tribal. Quando os aldeões protestaram, tropas foram enviadas para proteger os assentamentos e barracas do exército foram permanentemente estabelecidas.

Uma guerra civil entre os rebeldes das colinas e as forças do governo terminou com a assinatura do Acordo de Paz de Chittagong, em 2 de dezembro de 1997. As tribos, entretanto, se dividiram em facções distintas, com um lado apoiando o governo central e outro preferindo a independência.

As diferenças religiosas então se tornaram o ponto central para os aldeões que precisavam de um bode expiatório para suas frustrações.

Os cristãos de outras regiões de Bangladesh pouco podem fazer para apoiar os irmãos de Pancchari, uma vez que a área é remota, e viagens pela região são restritas por causa da tênue paz entre os rebeldes e as forças do governo.

Os cristãos locais, que se sentem completamente isolados e impossibilitados de apelar para as autoridades, disseram que estão na dependência de Deus para obterem uma justa definição.


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