Romance entre muçulmana e cristão gera ódio na comunidade

| 31/01/2006 - 00:00


Nesta mesma época no ano passado, Noor Jehan Ahmed, 55, vivia pacificamente na vila de Nagaon, no estado de Assam, nordeste da Índia. Ela e sua extensa família de 29 pessoas formavam um reduto cristão na comunidade majoritariamente muçulmana.

Então, alguém falsamente acusou essa avó cristã de conversão forçada - sua família foi dispersa e ela passou dois meses na prisão.

Noor Jean não é uma avó qualquer. "Eu sou a secretária geral local do Partido do Congresso," contou ela orgulhosamente ao Compass, quando estava na prisão no ano passado. "Quando eu sair daqui irei pessoalmente a Sonia Ji (Sonia Gandhi, líder do partido) e farei com que ela saiba dos meus problemas."

Quando Noor Jean tornou-se cristã há vários anos atrás, muitos outros membros de sua família também se converteram a Cristo. Ahmed e seu genro foram batizados e fizeram uma declaração pública de sua nova fé.

Mufizzal Haque, o líder da comunidade muçulmana em Nagaon, e Noor Jean eram diferentes em muitos aspectos - principalmente no religioso. Assim, quando a filha de Mufizzal se apaixonou por um rapaz cristão, Mufizzal formou uma conspiração contra Noor Jean que ainda reverbera na comunidade quase um ano depois.

O pesadelo começa

Em abril do ano passado, uma missão de Guwahati organizou dois encontros para os cristãos de origem muçulmana da cidade. Noor Jean compareceu às reuniões, juntamente com vários familiares.

O primeiro encontro, de 30 de março a 2 de abril, foi realizado sem incidentes. Então Firuza Begum, uma amiga de Ahmed, disse que queria muito participar da segunda reunião, de 8 a 16 de Abril. Firuza nunca havia demonstrado interesse em Jesus Cristo, e Noor Jean tentou desencorajá-la. Mas ela e seu marido insistiram.

Entretanto, no dia 9 de abril, Firuza disse que precisava ir para casa. Seu filho aparentemente havia ligado, informando que seu marido estava com a saúde muito fraca. Os organizadores se despediram de boa fé, providenciando até o dinheiro para a viagem de três horas de trem que retornaria para Nagaon.

Firuza foi embora às 15h30. Às 17 horas, o marido de Noor Jean ligou em estado de pânico. Líderes da comunidade o estavam questionando sobre as reuniões em Guwahati, acusando a família de Noor Jean de conversões forçadas. Eles o ameaçaram de graves conseqüências caso Noor Jean não retornasse imediatamente e procurasse o perdão na mesquita.

Testemunhas teriam visto Firuza chegar a sua casa e desaparecer para dentro da casa de Mufizzal Haque. No dia seguinte, Firuza registrou queixa contra Noor Jean, acusando-a de conversão forçada. Ela acusou a família de Noor Jean de mantê-la presa contra sua vontade por "muitos dias, num lugar secreto".

Mufizzal e seus colegas filmaram Firuza segurando uma Bíblia na língua urdu e um Novo Testamento em assamês. Eles também entraram em contato com amigos de Noor Jean e pediram para que eles mostrassem os livros cristãos que receberam no primeiro encontro em Guwahati. As imagens do vídeo foram posteriormente distribuídas por Nagaon como "prova" de que Noor Jean estava envolvida em conversões forçadas.

Os policiais interceptaram Noor Jean e outros membros da família em seu retorno a Nagaon e pediram que fizessem declarações.

Uma multidão se reúne

Assim que chegaram a Nagaon, pronunciamentos ecoaram da mesquita local encorajando os cidadãos muçulmanos a "ensinar uma lição aos kafirs (infiéis) que acabaram de entrar na cidade e estão na delegacia".

Uma grande multidão cercou então a delegacia, exigindo que Noor Jean e os outros membros da família fossem entregues à multidão para que fossem apedrejados até a morte. Como a polícia recusou, a multidão começou a apedrejar a delegacia. Os policiais então optaram pelo último recurso e atiraram para o alto, para assim dispersar a multidão.

Momentos depois, outra mensagem nos alto-falantes da mesquita incitou a multidão a demolir casas de famílias cristãs. Os muçulmanos de Nagaon passaram, numa espécie de "arrastão", incendiando todas as sete casas das famílias cristãs da vila e agredindo seus moradores.

"Aconteceu tudo tão de repente," disse Shamin Ahmed, descrevendo a violência. "Uma enorme multidão veio. Nós pudemos apenas correr para nos salvar com as roupas que vestíamos. Todo o resto foi destruído."

No caos, maridos foram separados das esposas e crianças de seus pais. A maioria fugiu do local, e alguns continuavam escondidos meses após o ataque.

Mais tarde, a polícia prendeu Noor Jean e sua nora Rehana Begum. Ambas foram levadas diante de um juiz e foram acusadas de violar vários itens do Código Penal indiano por "insultar maliciosamente" a crença religiosa de outros. A fiança foi negada.

O neto de Noor Jean foi preso após alguns dias, em 16 de abril, mas foi liberto sob fiança.

Os acusadores não apresentaram documentos legais até maio, deixando Noor Jean e sua nora atrás das grades. Vários adiamentos pela Corte aconteceram, até que as vítimas finalmente se apresentaram diante da Alta Corte em Guwahati e foram liberadas sob fiança em 31 de maio, com custas somando 25 mil rúpias (565 dólares).

Hoje, Noor Jean e sua nora estão fora da prisão, mas o caso contra elas ainda está pendente, assim como o caso contra os cidadãos muçulmanos que incendiaram suas casas. Nenhuma das casas foi reconstruída. Noor Jean e sua família ainda moram em um local provisório.

Alguns dias depois do incidente, a filha de Mufizzal tentou cometer suicídio. A tentativa falhou, graças a Deus - mas a comunidade não simpatiza mais com seu pai.

Uma comunidade antes muito unida - como milhares de outras destruídos pelo ódio comum - agora vive em proximidade forçada.


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