Luz e sombra – dois aspectos da liberdade religiosa na China

| 04/01/2006 - 00:00


Reportagens confusas e aparentemente conflitantes continuam a surgir, tratando da liberdade religiosa na China - ou da falta dela.

Compass entrevistou líderes de igrejas domésticas em seis grandes cidades em outubro. Esses líderes - particularmente os das gerações mais jovens - demonstraram uma confiança extraordinária no ministério e seu alcance. Evengelismo, treinamento e escolas dominicais florescem em suas cidades, apesar das rígidas regulamentações sobre a religião introduzidas em março.

O número de membros de muitas igrejas registradas pertencentes ao Movimento Patriótico das Três Autonomias (MPTA) está aumentando. De acordo com as estatísticas oficiais do MPTA, cerca de um milhão de novos fiéis se juntam ao movimento todos os anos. Apenas na província de Henan acontecem, em média, cerca de 40 mil batismos todos os anos, desde 1979.

Esses dados contrastam com os de muitos países ocidentais, onde a assistência das igrejas caiu drasticamente no mesmo período.

Oficiais do governo usam essas estatísticas positivas para convencer estrangeiros céticos de que tudo vai bem com as igrejas na República Popular. Por exemplo, números oficiais dão conta de que mais de 30 milhões de Bíblias foram impressas legalmente na China nos últimos 25 anos.

Nada mais convincente. O evangelista Luis Palau lançou uma assustadora recomendação à Igreja chinesa no final de novembro, conclamando todos os líderes de igrejas domésticas a se registrarem junto ao governo. Quando esses líderes informaram Palau da realidade oculta da Igreja na China, ele rapidamente reviu suas declarações.

Há poucas dúvidas de que muitos cristãos estrangeiros compartilham dessa visão inicialmente positiva de Luis Palau. Afinal, não é verdade que a China tem feito grandes avanços no que diz respeito à liberdade religiosa?

Duas realidades

Com muita freqüência na China, a resposta é tanto "sim" quanto "não". Algumas melhoras genuínas têm ocorrido nos últimos 20 anos. A sociedade agora permite uma expressão cultural e religiosa muito maior. Igrejas domésticas não-oficiais continuam a se multiplicar - é possível que, apenas em Pequim, haja mais de 3 mil, de acordo com um levantamento oficial feito em 2005.

Autoridades de muitas cidades fazem vistas grossas às atividades cristãs. Livrarias cristãs privadas estão surgindo em algumas localidades - o que era impensável há uma década.

Defensores dos direitos humanos e da liberdade religiosa devem atestar esse progresso. Não fazer isso favorece os oficiais do governo, que mostram aos visitantes estrangeiros realidades de igrejas lotadas, seminários bem-sucedidos e o aumento de livros religiosos disponíveis. Esses estrangeiros então voltam para casa proclamando as "boas notícias" da completa liberdade religiosa na China.

Mas existe outra realidade abaixo da superfície. O pastor líder de uma igreja doméstica em Pequim falou sobre a contínua perseguição às igrejas domésticas nas províncias rurais de Henan e Shandong, citando casos em que mulheres foram cruelmente agredidas pela polícia.

Em novembro, quando o presidente dos Estados Unidos, George Bush, visitou a China e pediu por uma maior liberdade religiosa, poucos prisioneiros religiosos foram libertados. No mesmo mês, entretanto, oito líderes de igrejas domésticas foram presos em Wuyang, Henan. Todos os oito foram soltos - porém, não antes que dois deles fossem severamente torturados.

Antes disso, na província de Hunan, 12 líderes foram presos - alguns foram torturados, agredidos e drogados durante o interrogatório.

Em 8 de novembro, o pastor Cai Zhuohua, um conhecido líder de igreja doméstica de Pequim, foi sentenciado a três anos de prisão por "práticas comerciais ilegais", depois que um foi descoberto um depósito contendo mais de 200 mil cópias da Bíblia e outras literaturas impressas ilegalmente.

Em 23 de novembro, logo depois que o presidente Bush deixou a China, cinco monges budistas foram presos no monastério Drepung, em Lhasa, por se recusar a denunciar o Dalai Lama. Muitos monges então começaram uma silenciosa greve branca, em protesto contra o governo chinês.

No mesmo dia, 16 freiras foram agredidas em Xian por proteger seu convento de criminosos misteriosos que pretendiam demolir o prédio. Uma das freiras ficou cega de um dos olhos; outra pode ter ficado para paralítica.

Essas duas realidades - uma positiva, outra negativa - convivem lado a lado na China de hoje. O modo como a China se posiciona no mundo atual faz com que a necessidade de apaziguar interesses com parceiros comerciais internacionais entra em conflito com a necessidade de controlar a problemática interna.

O aumento de problemas sociais, incluindo as imensas manifestações de camponeses no interior, junto com a difusão do uso da internet e dos telefones móveis torna mas difícil para o governo continuar a repressão no velho estilo maoísta.

A completa magnitude do reavivamento religioso por todo o país também ameaça a eficiência das antigas estruturas da religião "patriótica" controlada pelo MPTA e seu equivalente católico romano.

O governo, entretanto, parece comprometido com as forças repressoras. A ignorância entre os funcionários civis não ajuda - muitos policiais do interior não conseguem distinguir entre inofensivos encontros de oração de cultos com motivação polícia. Oficiais locais disseram a um estrangeiro em visita a Henan no começo de 2005 que ele teria maior liberdade para visitar os protestantes locais porque as autoridades tinham entendido que eles não estavam ligados ao Vaticano.

Com esse tipo de ignorância se espalhando, atos arbitrários de perseguição provavelmente devem continuar.

Ao mesmo tempo, estrangeiros fazem bem em considerar ambas as realidades se quiserem entender as condições da Igreja chinesa.


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