Com o crescimento da Igreja, aumenta a demanda por Bíblias

| 30/08/2005 - 00:00


Cai Zhuohua é um pastor chinês de grupos caseiros que, em setembro de 2004, foi preso por imprimir Bíblias e literatura cristã sem a permissão governamental.

Seu julgamento, primeiramente marcado para junho de 2005, foi adiado. Segundo os documentos do processo obtidos por sua família, Cai deve ser processado por "administração de negócios ilegais", por ter imprimido mais de 200 mil cópias de Bíblias e outras literaturas cristãs. Cai sempre protestou que seu empreendimento não era uma proposta de negócios, mas que, por causa da escassez de livros cristãos na China, ele estava planejando distribuir seus livros gratuitamente.

Reconhecendo a importância do caso, cinco advogados proeminentes se voluntariaram para defender Cai, inclusive o Professor Fan Yafeng, que é um pesquisador associado ao prestigioso Instituto de Estudos Legais da Academia Chinesa das Ciências Sociais. O governo está envergonhado pela atenção internacional dispensada ao caso de Cai, já que não deseja, mais tarde, embaçar sua imagem na corrida para sediar os jogos olímpicos de Pequim em 2008.

O caso de Cai chama a atenção para as severas restrições a que a publicação cristã está sujeita na China. Em primeiro lugar, a publicação de Bíblias está restrita às duas associações religiosas "patrióticas" reconhecidas pelo estado, o Conselho Cristão da China (CCC) e a Associação Católica Patriótica.

Nos últimos 20 anos, o CCC, através da Imprensa Amizade (Amity Press) com base em Nanjing, e com a ajuda de outros países das Sociedades Bíblicas Unidas, imprimiu mais de 35 milhões de Bíblias e de Novo Testamento. Essa é uma realização considerável. (A Associação Católica Patriótica também publicou cópias de uma edição católica chinesa da Bíblia).

Significa que, na maioria das cidades, a Bíblia está disponível a baixo custo à comunidade protestante - mesmo os cristãos das igrejas domésticas não registradas agora podem comprar Bíblias. O CCC tem uma rede de 70 pontos urbanos de distribuição, segundo o seu Diário Cristão de 2004, e também opera um número de camionetas para levar as Escrituras às áreas rurais.

Entretanto, o rápido crescimento da igreja em áreas rurais significa que há sempre insuficiência na disponibilidade de Bíblias naquele lugar. A pobreza e a baixa qualidade de transporte contribuem para que os novos convertidos das áreas rurais sejam impedidos de obter com facilidade as Escrituras. A insuficiência inclui o grande número de Bíblias "contrabandeadas" de lugares como Hong Kong, e aqueles impressos ilegalmente dentro do país por pessoas envolvidas como o pastor Cai. Um dos casos mais proeminentes envolvendo o contrabando de literatura cristã nos últimos anos ocorreu em 2001, quando um homem de negócios de Hong Kong contrabandeou milhares de Bíblias aos Shouters, uma seita cristã secreta na China com 500 mil adeptos. O homem de negócios de Hong Kong foi condenado a dois anos de prisão por comércio ilegal.

Contudo, apesar da evidente necessidade de mais Bíblias do que o sistema pode suprir, o CCC quer manter seu monopólio: há alguns anos, eles ameaçaram processar uma outra empresa que planejou publicar a Bíblia. Apesar disso, segundo alguns relatos, algumas entidades, incluindo universidades, que não são afiliadas o CCC, continuam a imprimir e vender literatura cristã com o consentimento secreto das autoridades estatais.

O CCC parece se preocupar como o sucessor legal de todas as várias denominações e organizações cristãs, incluindo editoras que foram obrigadas a ser unificadas mediante o controle do Movimento Patriótico das Três Autonomias (MPTA), em 1958. O CCC e o MPTA são conhecidos na China como a "lianghui" (as duas organizações); essas organizações gêmeas controlam todas as atividades protestantes. Na prática, o MPTA, que é abertamente uma ferramenta política do Partido Comunista, controla o CCC, que é responsável pelas atividades religiosas, tais como a reabertura de igrejas ou a impressão de Bíblias.

Além das Bíblias, o CCC vende uma gama de literatura cristã muito limitada em igrejas das principais cidades, por todo o país. Na prática, aqueles cristãos que freqüentam a igreja nos domingos podem comprar Bíblias ou livros cristãos por uma ou duas horas depois dos cultos. Algumas das bibliotecas principais da igreja ficam abertas durante a semana.

Essa rede também vende a revista "Tianfeng" (Heavenly Wind) do CCC/MPTA, que é a única revista cristã nacional protestante disponível em todo o país. O governo declara que há mais de 15 milhões de protestantes registrados, com 20 mil pastores. Muitos chineses e observadores estrangeiros acreditam que o número total de protestantes registrados e clandestinos é de mais de 50 milhões.

Ninguém conhece os números exatos, mas é verdadeiramente escandaloso que essa comunidade promissora deva obter permissão para publicar uma revista nacional. (Existe um número de revistas protestantes acadêmicas, que tem uma circulação local e restrita).

Nos últimos anos, a revista "Tianfeng" se tornou cada vez mais interessada com a propagação da teologia oficial de Reconstrução Teológica, sob a qual a igreja e suas doutrinas devem ser compatíveis com o socialismo. E, embora a variação de literatura cristã do CCC inclua um número de títulos de reverenciados pastores evangélicos, tal como Jia Yuming, há também um grande número de títulos que abertamente difundem a propaganda do MPTA e do Partido Comunista. Um bom exemplo é um livro escrito por um ex-presidente do MPTA, Luo Guanzong, com o subtítulo: Uma crítica de como o Imperialismo usou o Cristianismo para invadir a China, publicado em 2003.

Livros escritos por autores como Watchman Nee e Wang Mingdao, populares entre a comunidade cristã chinesa em outros países, são totalmente proibidos na China. A razão é que esses líderes resistiram à dominação do Partido Comunista da igreja na década de 1950 e foram enviados para campos de trabalho.

Muitos cristãos chineses indignam-se com o desvio dos recursos escassos da igreja para a barulhenta propaganda oficial. Essa indignação aumentou devido ao escárnio que muitos intelectuais não-cristãos dispensam, diante da natureza cada vez mais anacrônica da abordagem do CCC e do MPTA ao cristianismo.

Como o CCC reluta ou é incapaz de fornecer toda a literatura necessária, não é surpreendente que cristãos façam uso de outros meios. Nisto, eles são ajudados pela economia do mercado livre.

Muitas editoras não-cristãs perceberam que livros com conteúdo cristão são eminentemente vendáveis. Tal atividade pode ser arriscada. Há alguns anos, uma impressora não-cristã em Xangai foi descoberta pela polícia por ter imprimido um grande número de cópias ilegais de "Correntes no Deserto, uma popular obra de devocional diário. Ela foi multada em uma grande quantia de dinheiro. Muito desse dinheiro foi para os bolsos da polícia em vez de ter sido enviado ao governo.

Durante a década passada, cada vez mais editoras produziram livros cristãos. Ainda este ano, no aeroporto de Pequim, foi possível encontrar uma coleção de histórias bíblicas. Um grande número de histórias da Bíblia foi publicado e como contêm somente extratos do texto bíblico, eles conseguem esquivar-se do monopólio do CCC da Bíblia completa. Muitas são ilustradas - há até mesmo coletâneas muito dispendiosas com reproduções bíblicas do pintor francês Gustave Dore!

Muitos títulos cristãos, particularmente livros acadêmicos, são agora impressos em grande número, legalmente na China com seu próprio número ISBN. A tiragem é geralmente muito pequena - aproximadamente de quatro a dez mil - e títulos populares vendem rapidamente. A censura estatal facilita a publicação de títulos leves, que não demonstram imediatamente o seu conteúdo cristão.

Por essa razão, foi aprovada a publicação de um número de livros sobre "auto-ajuda", família e criação de filhos sob um ponto de vista cristão. Eventualmente, livros com conteúdo cristão explícito escapam da censura. Por exemplo, um livro que contém sermões de Billy Graham foi publicado, alguns anos atrás, pela Editora Yunnan Peoples. Em tais casos, suspeita-se que cristãos, ou aqueles que têm compaixão dos cristãos, possuam contatos corretos nos altos escalões do governo para imprimir tais títulos.

Há várias maneiras criativas de evitar chamar a atenção para certos livros cristãos publicados. As "Confissões", de Santo Agostinho, está catalogado como literatura latina antiga; "O Peregrino", de Bunyan, como literatura inglesa clássica. Essas descrições são, certamente, relatos acurados desses livros. Há também outras maneiras usadas para viabilizar a publicação de livros cristãos. Por exemplo, editoras menores e gráficas fazem pequenas impressões de títulos cristãos ilegais à noite para obter lucro. Os livros são apanhados por uma camioneta e distribuídos rapidamente. As igrejas protestantes domésticas operam um número de gráficas clandestinas e, até mesmo, publicam com freqüência revistas cristãs. Eventualmente, essas fábricas são descobertas pelas autoridades e os envolvidos são severamente punidos com exorbitantes multas e prisão.

Também, sabe-se que as distribuidoras do CCC não estocam livros cristãos ilegais debaixo da prateleira. Certa vez, no sudeste da China, um jovem lia um livro trazido de uma prateleira pelo assistente de vendas em uma biblioteca da igreja do CCC. Era uma famosa edição chinesa pirata do livro cristão evangélico "Conhecer a Deus" de J.I. Packer. Em uma outra ocasião, uma distribuidora do CCC estava vendendo livros restritos produzidos clandestinamente pelas igrejas domésticas em Henan.

Para satisfazer a crescente demanda por livros cristãos, as livrarias cristãs legais fora do sistema do CCC estão surgindo por toda a China. Freqüentemente, elas são administradas por cristãos das igrejas domésticas, com os alvarás necessários exibido nas paredes.

Os clientes de uma cidade são atraídos pelos títulos gerais a respeito de assuntos como família e criação de filhos no térreo da loja. Livros sérios de teologia são mantidos no primeiro andar. Há, até mesmo, uma prateleira de livros cristãos chineses trazidos de Hong Kong para serem revendidos. A alfândega dos livros, entretanto, tornou a compra proibitiva para a maioria dos que vivem no continente. Os livros impressos no local, em geral, são vendidos a varejo de 10 a 60 Renminbi (de 8 a 49 kroneres noruegueses, de 1 a 6 euros, ou de 1 a 7 dólares americanos). O crescimento explosivo do cristianismo entre os alunos e os intelectuais urbanos assegura um mercado crescente para vários livros cristãos de todos os tipos.

Essas livrarias cristãs particulares vendem o máximo de títulos cristãos legais com números ISBN que possam encontrar. Isso quer dizer que há um sistema de observadores, que vasculham catálogos de editoras e as maiores livrarias estatais e encomendam os títulos cristãos mais obscuros assim que publicados. A leitura cuidadosa de um catálogo de 2004 de uma livraria cristã na China oriental mostra que aproximadamente 200 títulos estão à venda naquele lugar, e que eles cobrem uma variedade de assuntos que podem ser encontrados em muitas livrarias cristãs em qualquer outra parte do mundo. Essas livrarias também vendem artigos cristãos de papelaria e para presente.

É encorajador que estas distribuidoras cristãs agora tenham permissão. Entretanto, mediante o presente sistema anacrônico de restrições e censura para a publicação cristã na China, essas devem ser as únicas livrarias cristãs no mundo que são proibidas de armazenar Bíblias. A comunidade cristã mostra todos os sinais de constante crescimento, mas a variedade de livros cristãos permitidos ainda permanece muito limitada. Com poucas exceções, tais como a Bíblia e um ou dois outros títulos, o número de títulos impressos ainda permanece deploravelmente baixo - poucos milhares para uma população de 1.3 bilhões de pessoas.

Nos três anos que antecedem os Jogos Olímpicos em Pequim, a China deveria afrouxar a censura cada vez mais anacrônica e o controle sobre a publicação religiosa. Da maneira como se apresenta hoje, não se pode afirmar que o atual sistema possa suprir as crescentes necessidades de publicação com o rápido crescimento de cristãos católicos e protestantes da China.


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