Evangélicos experimentam maior liberdade no Iraque

| 30/06/2005 - 00:00


Com braços estendidos, a congregação da Igreja Batista Evangélica Nacional elevou um hino de louvor acompanhada por bateria, guitarra e teclado. No canto, imagens de Jesus enchiam uma grande tela. Uma simples cruz branca de madeira adornava o palco e os adoradores pontuavam o sermão bíblico do pastor com gritos aprovadores de "Amém!".

A Nacional é a primeira congregação batista do Iraque e uma das pelo menos sete novas igrejas evangélicas estabelecidas em Bagdá nos últimos dois anos. Seu culto de domingo à tarde atrai cerca de duzentos crentes que gostam da música ao vivo e enfoque bíblico.

O número de evangélicos não é grande - talvez alguns milhares - dentro dos estimados 800.000 cristãos do Iraque. Eles estão emergindo na época em que as igrejas tradicionais perderam o status privilegiado que tinham na era de Saddam Hussein e têm experimentando um massivo esvaziamento de seus rebanhos por causa da longa emigração. Agora, os líderes de igrejas tradicionais vêem as novas igrejas evangélicas se enchendo, não tanto por muçulmanos convertidos, mas por cristãos que procuram um novo tipo de experiência de culto.

"A maneira como os pregadores chegaram aqui ... com soldados ... não foi uma coisa boa", disse o arcebispo católico romano de Bagdá, Jean Sleiman. "Eu acho que eles tinham a intenção de converter muçulmanos, apesar de os cristãos não fazerem isso aqui há 2 mil anos". "No fim", Jean disse, "eles estão seduzindo os cristãos de outras igrejas".

A população cristã do Iraque foi organizada há séculos em denominações como o catolicismo caldeano e o catolicismo romano. Enquanto o regime secular de Saddam permitia a liberdade de culto, o mesmo tempo limitava as novas denominações, particularmente se apoiadas por igrejas ocidentais.

Durante a invasão dos EUA em 2003, os evangélicos americanos não mantiveram em segredo o seu desejo de seguir as tropas. Samaritan"s Purse, (A Bolsa do Samaritano), a organização de auxílio global liderada pelo Reverendo Franklin Graham - que chamou o islamismo de uma religião "diabólica e má" - e a Junta Internacional de Missão da Convenção Batista do Sul, a maior denominação protestante do país, estavam entre aqueles que mobilizaram missionários e materiais de apoio.

Logo após a queda de Saddam, eles entraram no país, dizendo que sua primeira tarefa era providenciar auxilio humanitário aos iraquianos. Mas sua forte ênfase em compartilhar a fé fez surgir preocupações entre muçulmanos e alguns cristãos, temendo que eles pudessem fazer proselitismo abertamente.

Então o ambiente de segurança se deteriorou no Iraque - quatro missionários batistas foram mortos, ocidentais foram seqüestrados e pelo menos 21 igrejas foram bombardeadas - forçando a maioria dos evangélicos estrangeiros a fugir. Mas os evangélicos iraquianos continuaram.

"Para os cristãos, há democracia agora", disse Nabil A. Sara, de 60 anos, o pastor da Batista Evangélica Nacional. "Não é como antes. Há liberdade agora. Ninguém diz: "Por que você abriu uma nova igreja?"".

Alguns líderes de igreja, entretanto, estão fazendo também essa pergunta.

"Os evangélicos vieram aqui e eu gostaria de perguntar: Por que vocês vieram aqui? Por que razão?", disse o patriarca Emmanuel Delly, chefe do ramo oriental da Igreja Católica Caldeana, a maior comunidade cristã do Iraque.

Em entrevistas, Emmanuel e Jean se dividiram entre sua crença na liberdade religiosa e a ameaça que eles vêem chegando com o novo evangelicalismo. Eles também expressaram raiva e ressentimento ao perceberam a hipótese dos evangélicos de que os membros das velhas denominações não são verdadeiros cristãos.

Jean acusou as novas igrejas de apresentarem "uma nova divisão" entre os cristãos, porque as "igrejas aqui significam uma grande comunidade com tradições, língua e cultura, não simplesmente um edifício com algumas pessoas cultuando. Se vocês querem ajudar os cristãos, ajude através das igrejas já estabelecidas aqui".

O prelado católico romano disse ainda que não se oporia aos evangélicos porque "pedimos por liberdade de consciência". Ele também disse respeitar como eles parecem estar "prontos para morrer" por suas crença. "Às vezes eu me digo que eles são mais zelosos do que eu e que podemos lucrar com essa visão positiva de sua missão".

Alguns cristãos iraquianos temiam que os evangélicos minassem a harmonia cristã-muçulmana de lá, que repousa sobre um acordo tácito de longo tempo: não tentar converter o outro. "Há um acordo informal que diz que nós não temos nada a ver com a sua religião e fé", disse Yonadam Kanna, um dos seis cristãos eleitos ao parlamento iraquiano: "Somos irmãos mas não interferimos em sua religião".

Emannuel disse que "até se um muçulmano vier a mim e disser "Eu quero ser cristão", eu não aceitaria e lhe diria para voltar e tentar ser um bom muçulmano e, assim, Deus aceitará você". Tentar converter muçulmanos ao cristianismo, ele acrescentou "não é aceitável".

Sheik Fatih Kashif Ghitaa, um líder muçulmano xiita proeminente em Bagdá, estava entre aqueles que se alarmaram no influxo pós-guerra de missionários estrangeiros. Em uma entrevista recente, ele disse temer que os muçulmanos mal-entendessem porque tantos cristãos falam sobre sua fé.

"Eles têm que falar sobre Jesus e o que Jesus tem feito. Esse é um dos princípios da crença no cristianismo", disse Fatih. "Mas o problema é que os outros não entendem isso, eles acham que essas pessoas vieram para os converter".

Robert Fetherlin, vice-presidente dos ministros internacionais da Aliança Cristã e Missionária com sede no Colorado, a qual apóia um das novas igrejas evangélicas de Bagdá, defendeu o trabalho ultramarino de sua denominação.

"Tentamos não coagir as pessoas a seguir a Jesus", ele disse. "Mas queremos, pelo menos, comunicar às pessoas quem Ele é. Nos sentimos bastante encorajados pela possibilidade das pessoas no Iraque terem liberdade para fazer escolhas quanto ao sistema religioso que elas querem fazer parte".

Nabil disse que se muçulmanos se aproximarem dele com "questões sobre Jesus e sobre a Bíblia", ele responderá. Mas ele diz que há muito trabalho de evangelismo a ser feito entre os cristãos porque, em seu ponto de vista, muitos não conhecem realmente a Jesus. "Eles o conhecem apenas de nome", afirmou, acrescentando que eles precisam de  um melhor entendimento do "porquê Ele morreu por eles".


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