Lixeiros cristãos do Cairo

| 16/03/2005 - 00:00


No Cairo, uma comunidade de cristãos sobrevive coletando os detritos da maior metrópole muçulmana do mundo

Histórias de gente que vive da coleta de lixo não são novidade. Basta ir aos aterros sanitários das grandes cidades brasileiras para se deparar com a cena chocante de homens, mulheres e crianças garimpando a sobrevivência em montanhas de detritos. Mas, no Egito, um fenômeno desse tipo ganhou contornos socioculturais inéditos. Em Moqattam, um subúrbio do Cairo, vive uma comunidade cristã que é protagonista de uma das mais fascinantes histórias de sobrevivência urbana e exclusão social de que se tem notícia. Todos os dias e de porta em porta, essa minoria religiosa coleta cerca de 3 mil toneladas do lixo da maior cidade majoritariamente muçulmana do planeta. Desprezados e até mesmo ignorados pela maioria dos 16 milhões de habitantes da capital egípcia, eles são conhecidos como zebaleen. A palavra, ao pé da letra, significa catadores de lixo. Mas hoje evoca algo além de uma atividade. É sinônimo de um povo.

A vida dos zebaleen é árdua  e não apenas por serem uma minoria religiosa. Diariamente, os homens, pais e filhos, saem de casa logo cedo, por volta das 4 da manhã, em carroças puxadas por jegues e vão coletar todo o lixo que podem levar para suas casas. No lar, as mulheres, mães e filhas, separam o que é reciclável de tudo que foi coletado no dia anterior. O lixo orgânico não aproveitável é dado a porcos que são criados por ali também. Esse trabalho é feito dentro e fora das casas. Cada centímetro das ruelas de Moqattam é usado para armazenar dejetos, o que lhe conferiu a bizarra alcunha de cidade do lixo. E é isso que se encontra por toda parte, assim como o mau cheiro que inevitavelmente se instalou em toda a região.

Ao longo de mais de 50 anos, os zebaleen criaram o que é, sem dúvida, um dos mais eficientes sistemas de processamento de recursos degradáveis do mundo, reciclando mais de 80% de todo o lixo coletado. Mas, mesmo assim, a continuação desse relacionamento entre comunidade, geração de renda e proteção ao meio ambiente está longe de ser assegurada para o futuro.

Os zebaleen chegaram ao Cairo no fim dos anos 40, vindos de áreas rurais do sul do país, onde deixaram suas terras e a miséria da agricultura de subsistência. Na cidade grande, não encontraram muita sorte e logo se acomodaram à margem social, econômica e física da geografia metropolitana. Coletar o lixo foi a melhor saída encontrada até que as autoridades municipais os obrigaram a alojar-se em Moqattam, distante da capital e ao redor das colinas rochosas onde já havia um monastério copta, o de São Simão Sapateiro. Depois, outras quatro comunidades se formaram na cidade, totalizando 40 mil zebaleen, mas a de Moqattam ainda é a principal, com cerca de 25 mil habitantes sobrevivendo com ganhos em média de um dólar por dia e sem nenhuma assistência oficial ou remuneração do governo local.

São 40mil cristãos recolhendo e reciclando
diariamente mais de 3 toneladas de lixo

O trabalho dos zebaleen é visto como o mais desprezível possível na sociedade egípcia, especialmente por causa da criação de porcos  animal considerado impuro no islamismo. Ainda assim, eles vivem debaixo de um rígido senso de comunidade e família. Os casamentos são arranjados e a tradição cristã é protegida. Sua expressão de fé é ainda mais admirável. Cada um, entre homens e mulheres, tem uma cruz tatuada no pulso. Segundo eles, é uma referência ao verso da Bíblia no qual Paulo escreve que carrega as marcas de Cristo em seu corpo. Além disso, demarcam cada parede das ruas de Moqattam com motivos cristãos e, em seu gesto de fé mais dramático, ampliaram o Monastério de São Simão e o transformaram num complexo de igrejas e capelas bem no centro da comunidade, como um oásis de paz e beleza em meio a tanta miséria.

A maior igreja copta tem capacidade de abrigar até 20 mil pessoas numa impressionante estrutura esculpida na rocha. Isso, por si só, já lhe dá o título de maior templo cristão construído em países muçulmanos.

Gerando em média sete a oito empregos para cada tonelada de lixo processado, os zebaleen provam que é possível uma comunidade se organizar e se reinventar mesmo nas piores adversidades.

O trabalho dos zebaleen é considerado o mais
desprezível na sociedade egípcia

Com a ajuda de uma ONG local, eles construíram escolas para resolver o problema crônico de analfabetismo, principalmente entre as mulheres. Há ainda um programa de geração de renda para as meninas da comunidade, que aproveitam retalhos para fazer tapetes e bolsas. Os zebaleen também conseguiram reduzir a taxa de mortalidade infantil para a mais baixa em todo o país.

Mas o reconhecimento tarda em vir. Nos anos 90, o governo exigiu que trocassem as carroças por caminhões. Não ofereceu, porém, subsídio nem financiamento para o investimento. Assim, os zebaleen são forçados a se adaptar a exigências cada vez mais difíceis. Recentemente, as autoridades ameaçaram deslocar toda a comunidade para um local a mais de 30 quilômetros da cidade, praticamente no deserto, em nome do saneamento público. Isso seria um duro golpe, tornando impossível a coleta diária devido a distância a ser vencida com as carroças, que ainda compõem a maioria da frota.

Pergunte a qualquer um por que a vida deles não é mais fácil e você ouvirá a mesma resposta: Porque somos cristãos. Mas há outras questões em jogo além da religião. A cada dia, os zebaleen perdem mais espaço e empregos para multinacionais da coleta de lixo. A prefeitura do Cairo justifica os contratos milionários e os privilégios dados às companhias européias dizendo que é necessário profissionalizar a atividade. Mas a gente crê e não desiste, diz Nur, um jovem zebaleen que sonha um dia conhecer outros países, inclusive o Brasil. Talvez seja a saída para ele.


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