Notícia de Beslan e Fundo de Socorro ao Terror

| 16/03/2005 - 00:00


 No dia 24 de outubro de 2004, meu colega Valentin Vasilizhenko e eu deixamos Moscou e fomos para Vladikavkaz com dois diretores da Operação Criança do Natal da Bolsa Samaritana.

Nosso propósito era ver o quanto o ministério está progredindo nesta área e nos envolvermos pessoalmente em futuros projetos de ministérios para Beslan, Vladikavkaz e toda a área.

Aterrissamos no aeroporto de Beslan, que está localizado no subúrbio de Vladikavkaz. Antes de partirmos, decidimos parar e visitar a comunidade de Beslan, incluindo a Igreja Amond, onde estava acontecendo um culto noturno de jovens.

Em nosso caminho à igreja, paramos na Escola nº 1. Apesar do horário avançado, muitas pessoas da comunidade e de outros lugares ainda visitavam a escola.Todos tomavam cuidado ao andar entre os objetos das classes e expressavam horror à vista das janelas quebradas pela explosão e dos buracos nas paredes e telhados. Pilhas de flores haviam sido colocadas no meio do ginásio junto com velas que são acesas em memória das vítimas. Em todo lugar há garrafas cheias de água e pacotes de bolachas simbolizando a falta de bebida e alimento as quais as crianças foram submetidas. Elas foram obrigadas a tomar a própria urina e passar três dias sem comer.

Destruição e marcas

Uma das salas de aula me surpreendeu muito. De acordo com testemunhas, aquela classe foi onde uma das duas mulheres-bomba explodiu. Seus restos estão espalhados em todas as paredes. As janelas e portas estão estouradas e suas estruturas estão suspensas. Tudo foi destruído. Livros e cartilhas de alfabetização estão espalhados por todo lugar. Fui profundamente tocado ao ver pequenas marcas de mãos ensangüentadas em toda a sala. Muitas das quais estavam na parede da janela. Ninguém consegue sair daquela sala sem sofrer pelas crianças que foram à escola pela primeira vez. A tragédia é que os terroristas, não apenas destruíram essas vidas jovens e inocentes, mas destruíram os fundamentos da sabedoria humana e do amor.

Algumas testemunhas mostraram uma cerca onde disseram que, depois da primeira explosão, as crianças ajudavam umas às outras a pular e a fugir. Uma menina que estava ajudando os outros foi a última a tentar pular a cerca. Enquanto ela esticava suas mãos para pular para o outro lado, um terrorista a baleou nas costas e ela morreu.

Vimos também, um senhor que estava andando pela escola e não reagia a nada. Disseram-me que ele ia à escola todo dia de manhã e ficava lá até tarde da noite. Ele chorava e perguntava a si mesmo: "Por que isso aconteceu?". Ele perdeu seus três filhos e sua esposa grávida no ataque à escola.

Presentes de Natal

Durante nossa viagem, nos encontramos com Khodov, líder de um partido político em  Beslan, com o propósito de discutir a entrega de presentes de Natal e em toda a província. Enquanto discutíamos o projeto de entrega de presentes no Natal, ele enxugava as suas lágrimas ao compartilhar a história de seu próprio neto de oito anos que foi morto por uma bala em seu coração. Khodov apoiou a idéia de trazermos 66.000 caixas de Natal para Beslan e para toda a República Ossetiana, a fim de ajudar as pessoas a perceber que a comunidade cristã internacional se preocupa com eles e queria dar-lhes um momento de alegria por meio das caixas de presente que embalaram e enviaram por meio da Bolsa Samaritana. Khodov ficou muito encorajado depois de nos reunirmos com os dois diretores da Operação Criança do Natal, Hans Mannegren e Mark Schroeder.

Visitamos duas famílias com Gherman Dzheriev, diretor do Comitê de Distribuição de Fundos e Bens enviados a Beslan por fontes cristãs. Em uma das famílias, o filho de 12 anos de idade, Rustam, foi queimado no ataque. Rustam se lembra de tudo que aconteceu. Gherman deu à família de Rustam assistência financeira. Sua mãe ficou muito agradecida com a ajuda e disse que a usaria para o tratamento médico de Rustam.

A próxima família que visitamos tinha três filhos que foram feitos reféns na Escola nº 1. Duas das crianças sobreviveram e o filho mais velho de 15 anos morreu. Meus colegas e eu nos sentimos incapazes de consolar a mãe daquelas crianças. Gherman a presenteou com dinheiro e lhe disse para não usar com o filho morto, mas com aqueles que sobreviveram. Gastamos cerca de meia hora naquele apartamento que foi preenchido com tristeza, luto e muito choro. Em seu desespero, o pai e a mãe reclamaram de tudo, inclusive de Deus e perguntavam: "Por que nosso filho morreu nesta idade?".

Isso aconteceu com muitas famílias. Pessoas nas ruas de Beslan, que percebiam que éramos visitantes, corriam para compartilhar conosco suas histórias. Eu senti que esse é um campo para se ministrar, onde cristãos podem se tornar a fonte principal para providenciar conforto e aconselhamento, apesar de ser extremamente difícil encontrar as palavras certas para as jovens mães enlutadas e pais que perderam seus filhos no ataque à escola.

Juramento

Eu soube de muitas outras coisas enquanto conversava com as pessoas, incluindo nosso motorista ossetiano, Oleg. Oleg é de Beslan e foi contratado para nos transportar em Gazel (van). Ele estava conosco no playground enquanto eu tirava fotos de duas meninas que sobreviveram ao ataque e que estavam brincando do lado de fora da escola destruída. Ao mesmo tempo, uma assistente social estava distribuindo ajuda financeira àqueles que perderam seus familiares. No playground ela se aproximou de uma mãe vestida com roupas de luto e tentou lhe dar um cheque, mas a mãe recusou. Eu perguntei a Oleg, nosso motorista, se ele sabia porque isso aconteceu. Ele disse que algumas pessoas estão recusando ajuda financeira do Estado porque acreditam que a sua incompetência causou a morte das crianças. Oleg acrescentou que muitos homens de Beslan, especialmente os familiares das vítimas, foram a um lugar sagrado especial, não muito longe dali. Eles fizeram um juramento de maldição contra os terroristas e até contra sua própria nação. Eles culpam os ingush pelo que aconteceu, porque a maioria dos terroristas é ingush. Os ossetianos são 80% ortodoxos misturados com um pequeno paganismo antigo. É por isso que eles honram esses lugares sagrados e oferecem sacrifícios uma vez por ano, apesar de sua crença no cristianismo. De acordo com a tradição, se eles jurarem em um lugar sagrado, eles têm que cumpri-lo, ou seu próprio sangue tem de ser derramado.

Oriente médio da Rússia

No dia em que deixei Moscou, o principal canal nacional de notícias revelou que um novo depósito de armas e materiais explosivos, similares aos usados em Beslan, foi encontrado na fronteira Ingush-Tchetchênia preparado para outro ato de terrorismo. Eu encorajo os cristãos em todo o mundo a orar por esta área que pode se tornar o "Oriente Médio" da Rússia. Infelizmente, o governo está tentando lidar com esses conflitos étnicos, políticos e religiosos usando um exército corrupto e a força policial que poderá, ao fim, contribuir para mais mortes.

Visitamos o novo cemitério em nosso caminho ao aeroporto durante o último dia na área de Vladikavkaz-Beslan. É difícil descrever os sentimentos e pensamentos enquanto você está cercado por coroas de flores e sepulturas com as fotos de crianças nos túmulos. No caso de duas famílias Totiev, seis crianças foram mortas e enterradas uma ao lado da outra. Alguns perderam todos os membros de sua família. Vi algumas avós chorando e perguntando a Deus: "Por que você levou todos eles e não eu?".

Há duas características neste cemitério. Primeiro, o cemitério tem as mais jovens idades do mundo (7-12 anos). Olhando as montanhas azuis cobertas de neve no cenário daquele dia de outubro, também percebemos outro traço marcante sobre este cemitério. Ele é o único cemitério no mundo que tem a mesma data de falecimento em todos os túmulos. Muitas famílias não economizam em relação à sepultura de seus familiares. Eles trazem as rosas mais frescas todo dia.

Centro de Aconselhamento "De coração para coração"

O Centro de Aconselhamento Cristão "De coração para coração" começou a operar duas semanas depois da tragédia em Beslan com a ajuda do Evangelismo Regional dos Ministros Russos e o Ministério do Centro de Plantação de Igrejas em Vladikavkaz, dirigido por Gennady Terkun. Gennady plantou uma igreja em Vladikavkaz que tem cerca de 150 a 200 pessoas, 90 por cento dos quais são ossetianos. Cinco membros dessa igreja são jovens ossetianos graduados na Universidade de Vladikavkaz, e eles recebem treinamento. Com a ajuda do Fundo de Socorro ao Terror dos Ministros Russos, esses estudantes deixaram suas ocupações principais, mudaram-se para Beslan e começaram a trabalhar no centro de aconselhamento, onde fornecem auxílio emocional e espiritual às famílias afetadas pela tragédia. Outros dois conselheiros uniram-se a eles e são sustentados por outra organização, e vários voluntários que apóiam esse importante ministério diariamente.

Este centro de aconselhamento possui uma relação muito próxima com a Igreja Batista Amond, onde os irmãos Totiev trabalham. Atualmente uma média de 14 pessoas trabalha no centro de aconselhamento todo dia, incluindo conselheiros e voluntários de tempo integral. O centro está localizado em um prédio de restaurante, o qual um empresário alugou. Os voluntários da igreja local também trabalham no centro, onde passam conversam com aqueles que perderam seus familiares durante a tragédia. O centro tem uma sala de jogos especial com brinquedos e jogos para crianças pequenas, que podem brincar enquanto seus pais se encontram com os conselheiros. Para aqueles que visitam o centro, a comida tem um preço bastante baixo. Natasha, uma cristã, também providencia corte e penteados de cabelo. Eu estava lá quando uma menina chamada Tanya veio cortar o cabelo. Ela contou como sobreviveu ao ataque, apesar de estar perto da bomba que explodiu, mas ela perdeu seu irmão mais novo. Natasha contou que Tanya vem ao centro de aconselhamento todo dia porque tem medo de ir à escola. Ela só quer ir para casa quando sua mãe vem pegá-la depois do jantar. Os conselheiros vão aos hospitais, visitam os adultos e as crianças feridas e levam presentes, brinquedos e comida. Esses presentes ajudam os pacientes a compartilhar suas histórias e tristezas com os conselheiros.

Onde tudo é possível

Uma senhora veio ao centro cristão de aconselhamento, mas hesitou em entrar. Uma das conselheiras, chamada Vera, a viu e conversou com ela. Finalmente Gumetzova concordou em entrar. Ela estava com roupas de luto e tinha círculos escuros em volta dos olhos. Ela disse a Vera: "Você provavelmente não vai poder responder a minha pergunta sobre onde está a minha filha agora, porque o corpo dela não foi encontrado. Mas onde está a alma dela? E onde estava Deus?". Vera prometeu tentar responder sua pergunta. Depois de permitir que Gumetzova falasse sobre Aza, sua filha de 13 anos e extravasasse a sua dor por duas horas, Vera lhe pediu para voltar e trazer todas as coisas de que Aza mais gostava. No dia seguinte, Gumetzova trouxe um pacote dos pertences favoritos de Aza. Havia pequenos brinquedos que ela mantinha em sua escrivaninha enquanto fazia a lição de casa, um livro de histórias que sua mãe lia quando ela era pequena, fotos de suas amigas em pequenas molduras e um pedaço de papel com um poema que Aza escreveu e deixou em sua escrivaninha. Gumetzova disse que seis meses antes do ataque, Aza pediu para ser batizada. Impressionada com o pedido de sua filha e sabendo que, de acordo com a tradição ortodoxa, isso seria muito caro, os pais de Aza lhe disseram que tentariam economizar dinheiro com os trabalhos extras de seu pai e que todos eles poderiam ser batizados juntos no verão seguinte. "Onde ela está agora?, perguntou novamente. Então deu a Vera o pedaço de papel, no qual Aza escreveu o seguinte poema:

Estou indo...
Para onde há tudo
E tudo é possível.
Estou cansada de esperar
Não posso aguardar mais.
Isso aconteceu na hora certa.
Porque é eterno,
Porque tudo é tão difícil.
Eu tenho uma passagem para o paraíso
E irei logo para lá.
Farei minha viagem inaugural.
Será um pouco mais fácil.

Depois de ler esse poema, Vera abraçou Gumetzova e reafirmou o que disse: "Esse poema diz claramente onde sua filha está. Ela está no paraíso com Deus". Então Vera acrescentou: "Agora tenho uma pergunta para você: você quer se juntar a ela quando a hora chegar?".

Esta é apenas uma de muitas histórias que ilustram como Deus está trabalhando por meio dos conselheiros cristãos do centro "De coração para coração" para confortar os enlutados.

Sergey Rakhuba, vice-presidente do Ministério Russo de Renovação Espiritual Peter Deyneka

 

 


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