Liberdade religiosa: inimiga dos extremistas

Extremismo religioso no Uzbequistão pode ser resultado da repressão do governo e falta de democracia

| 16/06/2004 - 00:00

Liberdade religiosa é negada pelo próprio governo do Uzbequistão

Liberdade religiosa é negada pelo próprio governo do Uzbequistão


Este é um comentário feito por Nariman Gasimoglu, um estudante azerbaidjiano, tradutor do Corão e chefe do Grupo Democracia e Religião em Baku e atualmente estudando na Universidade de Gerogetown (Estados Unidos). Em seu argumento, o extremismo religioso no Uzbequistão - que ameaça se espalhar na Ásia Central e em outras regiões - é claramente o resultado da repressão do governo e da falta de democracia.

"A melhor maneira, se não for a única, de ir contra o extremismo, é ter uma sociedade aberta para a liberdade de religião para todos, democracia e livre escolha - mesmo incluindo facções islâmicas. Essa é a única maneira de reprimir o extremismo islâmico revelando o que o extremismo no poder pode significar.

Desde os ataques terroristas ocorridos no Uzbequistão nos meses de março e abril, as atenções novamente se voltaram para este estado da região da Ásia Central, que possui o maior risco da oposição islâmica radical. Ainda assim, o presidente uzbeque, Islam Karimov, e seu governo repressivo tem feito de movimentos islâmicos como o Hizb-ut-Tahrir tão forte que espremem a democracia e a oposição secular. Quando pessoas comuns querem retornar com outras forças para substituir a atual ditadura, existem somente a Hizb-ut-Tahrir e outros grupos tais como o Movimento Islâmico do Uzbequistão.

O islamismo possui três formas no Uzbequistão. Primeiramente, há a tradicional, a moderada, acompanhada pela vasta maioria da população que sente a obrigação de manter os modos antigos, entretanto, de maneira superficial. Segundo existe o islamismo patrocinado pelo governo (da mesma maneira que há no Azerbaidjão), com cleros fiéis ao governo que oram para as autoridades. E terceiro, existem os grupos radicais, incluindo a Hizb-ut-Tahrir, que não desfruta do apoio da maioria.


O objetivo da Hizb-ut-Tahrir em mudar a ordem constitucional e impor a lei Sharia do islamismo vai contra a lei. Quando a religião se mistura com a política, passar a ser contra o estabelecimento secular do estado. O estado secular tem o direito de se proteger. Mas isso não dá a autoridade ao governo de ofender a perspectiva religiosa de pessoas comuns restringindo seus ritos, e o acesso ao Corão e outras literaturas religiosas.

Como muitos no mundo islâmico, a Hizb-ut-Tahrir não se preocupa com a junção do Corão: "Não há compulsão na religião". Eu acredito que todos os muçulmanos deveriam ser mais tolerantes para com os que convertem do islamismo para outras religiões e não deveriam relacionar isso como apostasia como uma violação dos requerimentos religiosos e também não deveriam considerar isso como pecado.

Os objetivos e planos da Hizb-ut-Tahrir não são bons, mas ao invés de restringir o grupo e deixa-lo de lado, os governos da Ásia Central precisam estar abertos para discussões religiosas. Eles não deveriam ter medo do extremismo religioso.

Os estabelecimentos seculares do estado têm o direito de tomar medidas para irem contra o extremismo, mas não de ferir os direitos religiosos de pessoas comuns - como o governo uzbeque tem feito. As ações do governo não passam a impressão de serem sábias. Não se tem idéia de como proteger a política religiosa. A única maneira que eles conhecem é pressionar as pessoas por quaisquer meios.

Ao invés disso eu forneceria espaço e convidaria todos os líderes religiosos para discussões. Eu tenho os meus próprios pontos de vistas em como adaptar o islamismo aos valores contemporâneos e acredito que a essência da religião é transmitir a felicidade para as pessoas. Deixe que todos os líderes religiosos, independentes de sua crença ou atitude frente a ela, venham e debatam na televisão e na mídia. A liberdade de expressão e de religião não deveria ser restrita pela lei. Tais discussões em aberto são muito necessárias.

Eu convidaria até mesmo os membros da Hizb-ut-Tahrir para discutirem seus pontos de vistas na televisão e na mídia. Qualquer muçulmano que possui um passado religioso, iluminado pela lógica do Corão, pode provar que estes extremistas estão errados. Eu não sei se o governo uzbeque possui especialistas na lógica do Corão, muito menos se eles estão preparados para tal debate, mas outros estão. O governo deveria permitir seu povo a dirigir debates religiosos de maneira livre.

Muçulmanos comuns sempre precisam aperfeiçoar a fé - buscar a perfeição é um dos requerimentos do Corão. Isso é impossível para os muçulmanos no Uzbequistão nos dias de hoje com a Hizb-ut-Tahrir em um lado e o governo de outro. Não há espaço para praticar a religião. A comunidade islâmica é forçada a viver em um tipo de escuridão. Isso tem prejudicado os religiosos comuns.

Outras religiões também, especialmente os evangélicos e as testemunhas de Jeová, passam por um tempo difícil neste clima de falta de democracia. Entretanto, diferente do que se parece, o governo tem que promover um ambiente onde todas as comunidades religiosas podem praticar abertamente suas crenças sem qualquer restrição. A liberdade religiosa irá gradualmente resolver os problemas do extremismo na sociedade, assim como um mercado aberto resolve os problemas econômicos (a economia planejada falhou na União Soviética). O mercado religioso deveria estar mais aberto e livre, com os muçulmanos, cristãos e outras religiões.

Para mim, o presidente Karimov parece se importar mais em proteger sua própria posição como presidente do que qualquer outra coisa. Esse é o seu principal interesse. O Azerbaidjão é um pouco diferente - existe uma chance maior para a democracia mudar, mesmo que isso seja difícil transpor para a realidade. Os da oposição de fato existem, apesar das restrições e das recentes prisões dos líderes. A política religiosa também é diferente.

Mas existem algumas lições para outros países na região. O Irã tem proporcionado terríveis problemas para algumas minorias religiosas - tais como a Baha´i e os cristãos - e a lei Sharia tem sido interpretada de uma maneira que restringe a liberdade religiosa individual. Essas minorias obviamente não estão contentes com isso.

Mas os países árabes em particular precisam aprender a experiência infeliz do Uzbequistão. O extremismo religioso é ensinado por alguns do clero no mundo árabe. Vários jovens do Azerbaidjão que estiveram estudando em Cairo voltaram ao seu país de origem para lutarem com os rebeldes da Chechnya - eles foram levados a julgamento em Baku. A educação religiosa funciona de maneira muito ruim nos países árabes. O sistema educacional nestes países carece de mudanças profundas, especialmente na Arábia Saudita.

O mundo de fora deveria pressionar o Uzbequistão e outras ditaduras para garantir a democracia em todos os campos, incluindo a liberdade religiosa. Não existe liberdade religiosa sem democracia. O resto do mundo deveria encurralar o regime uzbeque, da mesma maneira que este país faz com seus inimigos dentro da sociedade.

Mas quando a democracia chega, a liberdade religiosa não irá automaticamente seguir - mudar a cultura predominante demanda muito trabalho. A liberdade religiosa ajudará a democracia e vice-versa. Quanto mais espaço você concede às pessoas a praticarem a religião, mais a sociedade pode se ver livre dos problemas de extremismo religioso. A liberdade é como um remédio, capaz de curar problemas sociais como o extremismo."


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