Cercados por uma multidão de testemunhas

| 25/10/2005 - 00:00


A carta a seguir foi escrita pelo pastor Peter Rahman* e conta um pouco da experiência de perseverança e livramento vivenciada por ele à frente de uma instituição cristã na cidade de Dacca, capital do país:

Queridos Irmãos,
 
Vocês devem estar cientes que os estudantes da nossa escola bíblica em Dhaka freqüentemente saem para compartilhar o evangelho com as pessoas nas ruas. No momento, as mulheres não têm saído - não é seguro para elas - mas os homens vão às ruas várias vezes por semana.
 
Outro dia, três dos nossos alunos foram até a comunidade próxima do nosso centro com folhetos. Como sempre, os alunos somente entregam folhetos às pessoas que desejarem recebê-los - esta é a nossa política.
 
Por volta das 17 horas, dois bandidos aproximaram-se e desafiaram nossos alunos. Em primeiro lugar, eles levaram 30 minutos para ler o folheto, procurando alguma coisa que difamasse o islã. O folheto dizia que qualquer pessoa que aceitasse Jesus se tornaria filho de Deus. Uma discussão se iniciou a partir deste assunto e, em breve, um pequeno grupo de 25 pessoas se reuniu e fez todos os tipos de perguntas.
 
Dois senhores imames (líderes religiosos muçulmanos) foram até o local quando souberam do tumulto. Depois de ler o folheto, eles declararam que era trabalho de pagãos e que não seria pecado se aqueles jovens fossem mortos e os assassinos certamente iriam direto para o céu.
 
Quando escureceu, os alunos foram levados até a beira do rio, um lugar onde os bandidos e criminosos freqüentemente realizam seus negócios, longe das ruas repletas de pessoas. 
 
Um dos arruaceiros começou a agredi-los, enquanto outros disseram que colocariam uma arma no bolso do aluno mais velho, Bharat, e o entregariam para o Batalhão de Ação Rápida, uma força da polícia de elite. Para delitos com armas, nenhuma pergunta seria feita e não haveria fiança nos primeiros sete anos.
 
Bharat respondeu calmamente: "Você pode fazer o que quiser conosco. Contudo, faça rapidamente".
 
Naquele momento, os arruaceiros ameaçaram de afogá-los no rio, mas pareciam relutantes em colocar em prática a ameaça.
 
Uma multidão reuniu-se para fazer perguntas sobre o centro bíblico e o seu líder - alguns deles sabiam o meu nome. Nesse momento, a gangue escolheu um dos alunos, Gopal, e o enviou de volta para o centro, dizendo-lhe para retornar dentro de 30 minutos com uma grande quantia de dinheiro - ou os outros dois alunos seriam espancados até morrer. 
 
Gopal apressou-se em me encontrar e pegamos um táxi de volta para a beira do rio, olhando através da escuridão - mas não pudemos ver Bharat e o terceiro aluno, Manoj. Liguei para os bandidos, usando o número do telefone celular que eles haviam dado ao Gopal. Meu coração disparou e imaginei que nós havíamos chegado tarde demais. Afinal, os extremistas muçulmanos já haviam assassinado três evangelistas em Bangladesh no ano passado - meus alunos poderiam facilmente ser os próximos.
 
Depois do meu telefonema, dois dos bandidos vieram ao meu encontro. "Fale-nos mais sobre este centro de vocês!", exigiram. Comecei compartilhando a minha história de como o amor de Deus me havia conquistado da origem islâmica que eu tinha para a fé cristã.
 
Então, eles tentaram me amedrontar, dizendo que nosso trabalho no centro era ilegal. Contudo, pacientemente lhes falei: "Não há nada ilegal nas nossas atividades. Fazemos tudo dentro da lei. Onde estão nossos alunos?".
 
"Bharat me falou que você nunca viria salvá-lo!", disse um dos membros da gangue, desafiando-me.
 
Com o coração batendo mais rápido, respondi: "Não abandonaria nenhum dos meus alunos!".
 
Então, os bandidos nos levaram até a beira do rio, onde o cheiro forte de amônia saía das profundezas poluídas - local em que os pobres vão buscar água para beber com baldes, lavam suas roupas e jogam fora o lixo.
 
Finalmente, chegamos até o rio onde Bharat estava sentado, cercado por mais membros da gangue. Eles me falaram que Manoj e vários outros membros haviam ido ao centro com armas de fogo para exigir dinheiro. Meu telefone celular tocou - e, no centro, um aluno freneticamente confirmou que membros da gangue estavam lá, exibindo as armas. 
 
"O que devo fazer?", perguntou. Eu falei para ele dizer aos outros alunos que ficassem calmos e fossem pacientes.
 
Finalmente, o telefone tocou novamente. Os membros da gangue saíram do centro e estavam retornando até nós. Mas, neste momento, nosso pequeno grupo à beira do rio foi levado para a casa de um outro imame, para que lesse o folheto e desse seu parecer.
 
O imame falou extravagantemente sobre o cristianismo, chamando-o de uma ferramenta americana e européia para destruir o mundo islâmico. Ele começou a falar-nos sobre o islã, mas eu o interrompi: "Por que está pregando o islã para nós, se não podemos pregar o cristianismo para você?".
 
A multidão crescente de observadores indignou-se e ameaçou jogar-me na prisão. "Vocês não podem fazer isso", lhes falei. "Nossa constituição me garante o direito de evangelizar".
 
"Você só pode fazer isso entre os cristãos!", alguém disse.
 
"Não, podemos fazer isto com qualquer grupo religioso", eu disse, confiante. Em Bangladesh, não há lugar para cristãos que não estão cientes da lei!
 
Finalmente, os dois membros da gangue me levaram para um canto. "Simplesmente, nos dê um pouco de dinheiro e resolveremos isso para você", aconselharam-me.
 
Balancei minha cabeça: "Não, não posso fazer isso". Eu sabia que se aceitasse a oferta deles, os alunos e funcionários do centro seriam perseguidos até que não nos restasse mais nada. Nesta nação de 130 milhões de pessoas, que enfrenta uma pobreza terrível, desemprego, desastres ambientais e corrupção endêmica, dinheiro é uma atração muito grande.
 
"Esta é a sua palavra final sobre este assunto?", perguntaram-me.
 
"Esta é a minha última palavra", respondi.
 
Dois deles declararam confusos: "Nesse caso, senhor, você deve ir embora sem os seus alunos".
 
Respondi-lhes firmemente: "Eu me recuso ir embora sem eles! Se eles ficam, nós ficaremos".
 
Já era perto das 22 horas. Estávamos negociando com os bandidos durante cinco horas e a multidão ainda estava indignada. Finalmente, eles ameaçaram tirar nossos bens, incluindo meu telefone celular, que estava ocupado com telefonemas ansiosos de minha esposa e outros funcionários do centro.
 
A camioneta da polícia passou pela rua próxima a nós, mas não os chamamos porque algumas vezes a polícia é pior do que as gangues. Estava orando em voz alta diante dos membros da gangue, pedindo a ajuda de Deus. Meu telefone celular continuava tocando, então finalmente o desliguei.
 
"Você sabe, se eu atirar em você e você morrer, eu irei para o céu", disse-me um dos bandidos.
 
"Então, prossiga e atire em mim!", eu disse encolerizado. "Simplesmente não desperdice mais do nosso tempo. Por favor, liberte nossos alunos!".
 
O líder dos arruaceiros olhou para mim. "Vocês todos podem ir, exceto Bharat", disse-me ele. "Amanhã você verá Bharat no hospital".
 
"Não!" eu disse, envolvido com um sentimento de grande paz de Deus. "Se você quiser poderá colocar todos nós no hospital, mas não partiremos sem Bharat".
 
Um outro na multidão disse: "Vocês acham que são tão espertos? Posso cessar todas suas atividades em 24 horas!".
 
Desta vez, não me preocupei em responder.
 
Finalmente, ao perceber que nós não estávamos preparados para recuar - algo incomum em uma cultura onde o suborno e a corrupção são norma - os arruaceiros perderam a esperança. 
 
"Sabe de uma coisa?", disse o líder deles, olhando para os amigos. "A qualquer momento que você tiver problema, nos chame - pague-nos um pouco de dinheiro e protegeremos vocês". Tive que sorrir com a persistência dele. A negociata de proteção é um grande negócio em Bangladesh; muitas empresas e instituições pagam por proteção para assegurar que suas instalações sejam mantidas em segurança.
 
"Não usamos nenhuma gangue para nos proteger - confiamos somente em Deus", falei para ele.
 
O líder balançou sua cabeça com incredulidade. Eu podia ver sua mente girando, perguntando-se como alguém não abandonaria seus amigos apesar de correr grandes riscos pessoais; não pagaria suborno; e não desconsideraria seus princípios. Tais pessoas são raras em Bangladesh!
 
"Então, vá embora - vá embora!", disse ele, segurando a minha mão. Fiquei surpreso: o aperto de mão era quase um sinal de respeito.
 
Louvado seja Deus que não houve tumulto na comunidade. Tensões religiosas são freqüentes em Bangladesh; em qualquer momento, um grupo de arruaceiros pode surgir e atacar nosso centro sob o pretexto mais insignificante. Todos sabem que somos cristãos. Todos sabem em que acreditamos. Estamos cercados por uma multidão de testemunhas, espirituais ou não!
 
Continuo falando para nossos alunos para sermos como ovelhas, suportando todos os insultos sem protestar e permitindo que o caráter de Cristo brilhe através de nós para que possamos alcançar os perdidos.
 
Que Deus esteja trabalhando no coração dos membros da gangue que passaram aquelas cinco horas conosco. Talvez algo do Seu amor brilhe através das nossas atitudes e os leve a Jesus.
 
Confiando nEle,
Peter Rahman

* Por razões de segurança, todos os nomes desta história foram trocados.


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