A verdade sobre a China

Veja a posição da Portas Abertas em relação à realidade da perseguição religiosa enfrentada pelos cristãos que vivem no país

O texto a seguir declara o posicionamento da Portas Abertas em relação à realidade da perseguição religiosa enfrentada pelos cristãos que vivem na China. A declaração foi elaborada pela Portas Abertas Internacional em janeiro deste ano. Leia a íntegra:

A China é um país cheio de paradoxos que se revelam desconcertantes para os estrangeiros. Enquanto alguns líderes cristãos chineses padecem na cadeia, outros viajam o mundo falando sobre liberdade religiosa. Alguns contrabandeiam Bíblias, ainda que a Bíblia seja também impressa e vendida legalmente. Grande aspereza cerca a questão de quantos cristãos existem atualmente na China e como as organizações cristãs devem assistir a Igreja chinesa. Nosso posicionamento pode ser expresso simplesmente sob três tópicos: progresso, perseguição e reavivamento.

Progresso
Os últimos 30 anos têm testemunhado o grande progresso pela causa da liberdade religiosa na China, resultando em oportunidades extraordinárias para os cristãos ocidentais servirem e testemunharem na sociedade chinesa. A opressão ideológica da Revolução Cultural (1966-1976) passou e a China abre sua economia às forças globalizadas, e agora é possível trabalhar legalmente dentro da China e desenvolver parceria com cristãos locais, ainda que essencialmente com a igreja oficial, por enquanto.

Mais de 46 milhões de Bíblias foram impressas legalmente na China desde 1988. O número de Bíblias que o governo chinês permite que a Amity Press imprima excedeu os 5 milhões por ano em 2004 e 2005. Ainda que uma parte dessas Bíblias seja exportada, a grande maioria é distribuída internamente.

Essas Bíblias são vendidas a um preço baixo por intermédio das igrejas protestantes oficiais e, de modo geral, atendem a demanda de Bíblias nas cidades. Alguns cristãos de igrejas domésticas conseguem comprar essas Bíblias. Além disso, muitos conselhos de igrejas das províncias podem imprimir literatura cristã. Há também muitos livros religiosos produzidos e vendidos em livrarias do governo por editoras acadêmicas. Esse é um grande avanço e deve ser aplaudido.

Nas áreas rurais, onde vivem 80% dos cristãos de igrejas domésticas, ainda há uma considerável carência das Escrituras. Freqüentemente os aldeãos cristãos não podem viajar para as cidades para comprar Bíblias e, de qualquer maneira, não poderiam pagar por elas. Outros cristãos de igrejas domésticas preferem não comprar por meio da igreja registrada, preocupados de que possam ser inquiridos para revelar informações sobre os membros da igreja doméstica. O resultado é que milhões de cristãos na China ainda não têm sua própria Bíblia. Por isso ainda é importante enviar Bíblias para eles.

Dado o crescimento da Igreja chinesa, em um dado conservador que aponta de 3 a 5 milhões novos crentes por ano, é provável que a necessidade de Bíblias seja atendida. Entretanto, a Igreja chinesa tem crescido espiritualmente e os cristãos estão agora pedindo versões da Bíblia que contenham mais do que apenas o texto da Escritura, como as Bíblias de estudo, Bíblias com concordância e referência, que ainda não são produzidas pela Amity Press para distribuição em grande quantidade. Por isso, se as missões ocidentais pretendem ajudar a Igreja chinesa a amadurecer em sua fé e a entender a Palavra de Deus, o suprimento de Bíblias que complementa os esforços da Amity Press deve continuar.

Milhares de professores cristãos ensinam Inglês e outras disciplinas nas universidades. Seminários e igrejas são reconstruídos e orfanatos e instituições de caridade são estabelecidos, graças aos projetos de cooperação entre missões ocidentais e organizações oficiais aprovadas pelo Estado.

Essas oportunidades provavelmente aumentarão no futuro. Grupos perspicazes devem continuara tirar proveito da chance que representa essa porta aberta, já que eles reconhecem os riscos e estão cientes dos níveis de corrupção envolvida. Não é política da Portas Abertas criticar, mas elogiar os envolvidos nesse trabalho, uma vez que o preço do envolvimento é não se calar sobre a perseguição.

Perseguição
Alguns negam que haja diferentes níveis de perseguição. Ainda que a maioria dos cristãos comumente se recuse a adorar dentro das igrejas aprovadas pelo Estado, achando o monitoramento do governo invasivo e controlador. O evangelismo fora dos limites da igreja registrada é ilegal. Ainda que o governo da China não tenha uma lei nacional que explicitamente proíba o ensino da religião para qualquer pessoa com menos de 18 anos, as regulamentações internas das províncias existem para proibir o batismo de menores e restringir os programas dirigidos às crianças. Professores de escola dominical enfrentam a possibilidade de detenção, multas ou prisão por até 3 anos se forem pegos. Líderes de igrejas domésticas ainda são presos e agredidos pelo que, na sociedade ocidental, seria respeitado como livre expressão de sua fé.

Algumas agências cometem exageros ao relatar os níveis de perseguição enfrentados pela média dos fiéis, que enfrentam discriminação e ameaças, em vez de prisão e agressões. Há também uma grande variação de tolerância dentro do país. Em algumas áreas, cristãos de igrejas domésticas cantam no máximo volume de suas vozes e até constroem suas próprias igrejas, a despeito da legislação formal, e até são deixados em paz pela polícia, que sabe de sua existência. Em outras áreas, entretanto, líderes de igrejas domésticas podem ser detidos, espancados, presos e os encontros das igrejas domésticas podem ser impedidos. Periodicamente, há uma série de batidas policiais em grupos não-registrados que são iniciadas pelas autoridades em níveis maiores, usualmente priorizando grandes eventos, nacionais ou internacionais, como quem quer enviar uma mensagem às igrejas domésticas sobre quem ainda está no controle.

A Igreja cristã na China pode não ter tantos mártires como a Colômbia, enfrentar tantas restrições quanto as irmãs na Arábia Saudita, ou lutar com tantas multidões extremistas como os irmãos na Indonésia, mas os milhões de cristãos na China permanecem como a maior comunidade perseguida hoje.

Reavivamento
A Igreja chinesa se tornou a maior comunidade cristã devido a um grande reavivamento ocorrido no início dos anos 1970, cujo número é sem precedentes na história da cristandade. Acreditamos que o número de cristãos esteja entre 60 a 80 milhões, apesar de poder ser maior.

Desse número, mais de 23 milhões congregam nas duas igrejas oficialmente organizadas da China - o protestante Movimento Patriótico das Três Autonomias (TSPM - Three Self Patriotic Movement), com mais de 18 milhões de membros, e a Associação Patriótica Católica (CPA - Catholic Patriotic Association), com 5 milhões de membros. Uma vez que os membros das igrejas oficiais formam a minoria, líderes indicados pelo governo do TSPM e CPA não podem alegar que falem no lugar da comunidade cristã chinesa em sua totalidade.

Conseqüentemente, para dar assistência a toda a Igreja na China, alguém é forçado a entrar em choque com a política do governo, que insiste que toda ajuda só pode chegar às igrejas oficiais.

Baseados no compromisso de assistir a totalidade da Igreja na China, que é pelo menos três vezes maior do que as autoridades admitem, precisamos continuar a encontrar meios de suplementar a ajuda dada às igrejas oficiais. Por exemplo, uma vez que a produção legal de Bíblias não atende às demandas e necessidades espirituais da maioria dos cristãos chineses, precisamos suprir de Bíblias e outras ferramentas de estudos bíblicos os milhões de pessoas da igreja doméstica em crescimento e desenvolvimento.

É tolice que as missões se critiquem mutuamente sobre que método é mais apropriado quando as necessidades da Igreja chinesa são tão grandes. A Igreja chinensa precisa da ajuda de todos agora, e todo método é ainda apropriado.. até que as igrejas locais chinesas sejam atendidas e respeitadas.

Resumo
Os líderes das igrejas aprovadas pelo governo não falam pela Igreja chinesa inteira. Ao mesmo tempo, líderes de redes de igrejas domésticas são proibidos de ter uma plataforma para declarar suas necessidades. Nós da Portas Abertas buscamos articular as visões desses líderes de igrejas domésticas, falando no lugar daqueles que não podem falar por si mesmos.

Enquanto existem oportunidades positivas aprovadas pelo governo para assistir os cristãos que congregam em igrejas oficiais, essas oportunidades de forma alguma atendem as necessidades de toda a Igreja. Precisamos não ser iludidos pela propaganda do governo ou por meias verdades que emanam dos "experientes-visitantes-ocidentais-que-voltam-da-China" que ecoam a linha oficial.

A Igreja na China está crescendo rapidamente, mas a espiritualidade da Igreja é comparativamente pouco profunda. Apenas se tirarmos vantagem de todas as oportunidades para assistir a Igreja inteira na China por meio de distribuição de Bíblias, treinamento de liderança, suporte em oração e encorajamento veremos o crescimento sólido e contínuo do maior reavivamento do mundo.