A história religiosa num país comunista

| 02/04/2004 - 00:00

Na China, o regime enxerga a religião através das lentes do nacionalismo

Na China, o regime enxerga a religião através das lentes do nacionalismo


A China possui uma longa tradição histórica. Os chineses são bem interessados por ela. Para os chineses, o presente está inconfundivelmente interligado com o passado, e o passado oferece lições para o futuro. Os líderes comunistas pensam da mesma forma.

Eles são cientes que, através da longa história chinesa, muitas rebeliões populares e conflitos aconteceram em nome da religião. A mais recente, em meados do século XIX, durou quase vinte anos e testemunhou uma força rebelde ocupando quase todo o sul da China. A Rebelião Taiping, liderada por um estudante confucionista que assumia ser o irmão chinês de Jesus Cristo, impôs os recursos do governo Manchu. O governo central pôde acabar com a rebelião graças à assistência estrangeira e de fissuras internas dentre os rebeldes. Essas lições históricas não estão perdidas na memória dos líderes e intelectuais de hoje. A elite não está acanhada em ressaltar esses fatos históricos quando confrontada com acusações de que o estado está reprimindo a religião.

Entretanto, dissensão interna organizada em nome da religião é só metade da história. A história moderna da China tem sido caracterizada tanto por divisões internas como pelo estatus semi-colonial por poderes do mundo ocidental. O militarismo e a economia do mundo ocidental empurraram a China durante os séculos XVIII e XIX tendo sido acompanhado por missionários cristãos. É verdade que entre os missionários cristãos estiveram muitos com menos interesse na condição das almas chinesas do que em buscar ganho próprio Mas muitos outros contribuíram de maneira grandiosa para que a China se tornasse mais moderna do que antes.

Ainda assim, o nacionalismo de onde o regime comunista derivou sua legitimidade baseia-se no senso de se fazer de vítima e exploração do poder do mundo ocidental, cuja ação foi facilitada, pelo menos em parte, pelos missionários estrangeiros. Essa ligação percebida entre governos estrangeiros e grupos religiosos em suas sociedades passou a ser tão forte que o regime, assim que assumiu o poder, estabeleceu organizações religiosas patrióticas com o objetivo primário de garantir que organizações religiosas chinesas não mais estivessem de baixo da influência de grupos religiosos estrangeiros.

Por essa mesma razão, o estado reagiu quando no dia primeiro de outubro de 2000 (a data nacional da República Popular da China), o Papa canonizou mais de cem chineses e católicos romanos ocidentais. Muitos desses novos canonizados perderam suas vidas na rebelião de 1990, movimento anti-estrangeiro patrocinado pelo estado que usou da violência contra estrangeiros e seus simpatizantes chineses. Da mesma forma, o governo continua a insistir que qualquer normalização de relações entre a China e o Vaticano deve incluir as garantias que não irá interferir nas relações católicas na China.

Esse temor e esperança de que organizações religiosas podem estar conectadas com entidades estrangeiras promovendo atividades anti-éticas para os interesses chineses tem, aparentemente, ultrapassado as tradições religiosas ocidentais como o cristianismo. Até mesmo a Falun Gong, grupo espiritual constituído por raízes primitivas indígenas chinesas, tem sido vítima dessa percepção. Por exemplo, um seguidor dessa seita, que reside fora do país, disse que durante uma vista recente à sua terra natal, foi preso e interrogado por oficiais que se apresentaram como agentes de segurança do estado responsável pelo serviço de inteligência do país e pelo serviço de espionagem. Segundo esse seguidor, os oficiais insistiram que essa seita deve fazer parte da folha de pagamento da CIA com o objetivo de ser revolucionário para com o governo chinês.

Esses dados indicam que o regime também enxerga a religião através das lentes do nacionalismo e, por extensão, pela soberania territorial. De fato, essa é a estrutura através da qual o Partido Comunista enxerga os fiéis e as atividades em regiões autônomas de minoria étnica como as regiões do Tibet e de Xinjiang. No Tibet - onde Dalai Lama é o líder espiritual e, na mente de muitos tibetanos, o verdadeiro líder político - o Regime Comunista possui uma linha dura contra todos os monges e freiras budistas tibetanos que recusam renunciar a submissão ao estado. Em Xinjiang, onde os muçulmanos da facção Uighur, o povo turkic, forma a maior população étnica entre os que possuem um crescente sentimento nacionalista, o governo chinês tem usado sua cooperação com a campanha global anti-terrorista, liderada pelos Estados Unidos, como uma justificativa de intensificar sua atitude linha dura contra os Uighurs. Esse é o motivo pelo qual Rebiya Kadeer, que foi a mulher mais próspera em Xinjiang, continua a adoecer na prisão acusada de fornecer informações confidenciais do estado - clippings de jornais - à estrangeiros.


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