Missão Portas Abertas - Servindo cristãos perseguidos
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quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Transcrição da entrevista com David de Vinatea
Entrevista a Portas Abertas no dia 20 de novembro de 2003, Lima, Peru
 

Portas Abertas - O que significou para o sr., um coronel do exército peruano com uma ficha impecável, ser acusado de traficar droga?

David - Ser acusado dos mesmos crimes que combati com integridade e profissionalismo foi, para mim, tremendamente desconcertante. De fato, algumas de minhas próprias tropas morreram defendendo a nação contra o terrorismo e o tráfico de drogas. Assim, encontrar-me de repente na cadeia por motivos injustos foi deprimente e desmoralizante.

Apesar de todas as evidências que apresentei, toda prova razoável de minha inocência, eles nunca acreditaram em mim. O tribunal foi manipulado por um mentor sinistro e corrupto. Os juízes, os advogados e promotores distritais, que julgaram o meu caso e me condenaram, estão todos agora ou na cadeia ou são fugitivos da justiça devido a acusações de corrupção.

Isso foi um golpe para a sua família?

Foi devastador para nós, terrivelmente devastador. Num dia eu era um coronel com uma carreira brilhante no exército, com grandes chances de chegar ao alto comando. No dia seguinte fui jogado numa cela suja, vivendo com ratos e separado da família. Pouco a pouco me dei conta de que tudo foi uma cilada para salvar os oficiais corruptos.

Como essa experiência influenciou o seu relacionamento com Cristo?

Eu entreguei minha vida ao Senhor em 1991 mas, a exemplo de muitas pessoas, eu era um crente "light". Eu ia à igreja todos os domingos, cantava louvores ao Senhor, orava, dava minha oferta, e assim era até o domingo seguinte. Mas foi na prisão e, principalmente, na cela de segurança máxima onde estive por 11 meses, isolado e incomunicável, que encontrei o ver-dadeiro Senhor e Mestre da minha vida, o Senhor Jesus Cristo. Entreguei-me ao Senhor de um jeito novo de todo o meu coração.

É possível que outros tenham desejado feri-lo devido ao seu testemunho cristão?

Com certeza, apesar disso não ser a única razão porque eu sentia uma certa antipatia por parte do meu comandante. A primeira coisa que fiz em cada uma das minhas bases foi colocar uma tabuleta com os dizeres: "Deus está no comando desta base". Bem, este general me pressionou para me livrar da tabuleta. Ele disse: "Deus não está no comando aqui, eu estou". "Desculpe-me, general, o senhor é o comandante. O senhor dá as ordens aqui, mas Deus está na direção", eu respondi.

Isso foi o detonador que apressou este general a providenciar com os traficantes a armação de uma cilada na qual eu caí. Não teria me custado nada participar daquele comércio corrupto. Eu não teria ido para a cadeia. Agora mesmo eu seria um general graduado, um milionário com propriedades, bons carros e uma gorda conta bancária. Hoje, eu não tenho nada, mas tenho de fato Deus em meu coração.

Uma vez preso e condenado a 16 anos, como o sr. se sentiu?

Eu não conseguia acreditar. Estar na prisão era algo além do possível para mim. Mas a prisão foi onde de fato busquei a Deus, porque Ele é o Mestre da minha vida, e foi lá que vim a conhecê-Lo em Sua verdadeira dimensão. Aprendi a orar de fato.

Estar preso é estar em desespero, porque não se perde somente a liberdade, perde-se tudo. Minha família ficou ao meu lado durante minha prisão com muito afeto, mas eu não podia cuidar das coisas. Eu não podia cuidar das coisas em casa. Eu não podia acompanhar os estudos dos meus filhos, ou ver se eles estavam limpando seus quartos, como se espera que faça o chefe da casa. Eu não podia dirigir uma devocional ou dar graças às refeições. Tudo era impossível para mim.

É onde se aprende a se firmar nas promessas do Senhor. Como diz Filipenses 4:13, "Tudo posso naquele que me fortalece". Essas são promessas que precisamos aprender.

Como o sr. passou o tempo na cadeia?

Deus me usou principalmente para formar uma igreja no bloco de celas. Senti a necessidade de pregar a Palavra do Senhor. A igreja começou com nada, mas nunca cessou de orar. Ela ainda é pequena, ainda é simples, mas está crescendo tremendamente em espírito. O homem na prisão tem fome da Palavra de Deus.

Na prisão aprende-se a orar com sentimento, a clamar a Deus, já que se está amarrado de pés e mãos. Pomos toda a nossa fé no Senhor e Ele responde de muitas maneiras maravilhosas. No meu caso, se não fosse pelo Senhor, eu estaria pensando em sair da prisão no ano 2011.

Portas Abertas iniciou uma campanha de oração e ação em 1998. Como o sr. fez contato com este ministério?

Não sei como aconteceu. O Senhor os trouxe. Eles vieram por intermédio de um irmão, num momento muito, muito crítico para nós. Todos os meus colegas do exército voltaram as costas para mim, porque havia uma ordem para fazer de mim um exemplo, uma ordem para tratar mal a minha família.

Foi quando apareceu Portas Abertas para nos dar o apoio cristão que nós tanto precisávamos para suportar esta provação. Louvado seja o Senhor porque vencemos. Nós sempre proclamamos vitória, mas agora podemos cantá-la com grande alegria.

Não posso verbalizar a imensa alegria que sentimos quando recebemos as cartas de tantos países, de tantos crentes, que nos foram mandadas através de Portas Abertas. Isso elevou muito nossos espíritos, manteve a nossa fé. Manteve viva a esperança de que um dia eu seria libertado. Aquelas cartas foram como oxigênio para nós.

Infelizmente, por motivos financeiros, não pude responder a todas elas. Tenho mais de 5.000 cartas em casa que recebi de vários países. Tivemos um único luxo em nossa situação, porque o nosso caso era apoiado em oração 24 horas por dia. Enquanto as pessoas estavam indo para a cama na Europa, outras estavam se levantando para orar na Ásia ou na África.

Nunca perdi minha fé, mas isso não significa que eu sempre fui vitorioso. Muitas vezes me senti abatido, deprimido. A minha libertação foi negada cinco vezes, apesar de eu merecê-la. Fui condenado injustamente, e depois eles dobraram a punição. Por isso tive de ficar sozinho e procurar refúgio no Senhor.

O que aconteceu nos dias finais?

Na noite antes de eu ser libertado, não pude dormir. Cochilei um pouco. No momento em que peguei no sono, eu os vi em sonho, dizendo-me que eu teria de ficar os 16 anos completos porque havia algum erro. Acordei sobressaltado. Então, irmão, caí de joelhos para orar. O inimigo é vencido através da oração.

Era dia de visita, uma quarta-feira. Havíamos planejado cada atividade com 100 dias de antecedência. Foi uma festa naquele dia. Chegaram minha esposa, meus filhos e minha irmã. Claro que com o passar das horas aconteceram alguns contratempos, as coisas se atrasaram. Nós dissemos: "Senhor, dá-nos paciência, dá-nos serenidade. Não importa o quanto demore, nós vamos sair daqui".

A despedida foi muito emocionada. Existe uma tradição na prisão. Todos querem tocar na pessoa que está saindo porque, através do toque, um pouco de sua liberdade pode ser recebida.

As atividades dentro da prisão foram paradas e todos vieram se despedir. Foi muito triste porque sabíamos que estávamos deixando para trás muita gente que estava sofrendo. Sei de muitos casos de prisioneiros que não pertencem àquilo, mas estão apenas abandonados. Foi alegre e, ao mesmo tempo, doloroso.

Aconteceram muitas coisas emocionantes naquele dia. Como foi passar pela porta de aço que o separava do mundo livre?

Passar pela porta significou liberdade. Fazia 8 anos que eu não via minha esposa e meus dois filhos ao mesmo tempo. Oito anos nos quais não pudemos conversar juntos, não pudemos orar juntos. Eu via meus filhos aos domingos, e depois às quartas-feiras e sábados eu podia ver minha esposa e minha filha. Mas nunca pudemos estar juntos como uma família durante 8 anos. É uma bênção conhecer uns aos outros novamente, conversar e compartilhar idéias.

Eu fui para a prisão com filhos pequenos. Um deles estava apenas concluindo o colégio, minha filha ainda estava iniciando. Agora meus dois filhos são engenheiros profissionais. Mas a nossa fé está mais profunda do que estava há oito anos. Agora confiamos cegamente no Senhor, porque Ele salvou nossas vidas. Ele me salvou três vezes durante motins.

Quando o sr. estava saindo da prisão, olhava para o alto. Por quê?

Para dar graças ao Senhor. Peguei as mãos da minha esposa e da minha filha - meus filhos estavam atrás de nós - e levantei meus olhos para os céus porque o meu auxílio vem do Senhor. Por outro lado, fiz aquilo para respirar o ar da liberdade. Era um momento de gratidão ao Senhor por sair vivo da prisão.

Todas as noites eu pensava: Será que vou estar vivo amanhã de manhã? Na prisão, a vida não vale um centavo. Qualquer um pode matá-lo, os inimigos são muitos. Por isso é realmente uma bênção eu estar vivo e ao lado da minha família.

Quando o sr. chegou em casa, demorou-se à porta de entrada. Por quê?

Eu ainda não entendo bem por que estava separado da minha casa. Muitas vezes eu me imaginei em pé à porta de entrada, tocando a campainha para entrar na casa e ver minha família. Foi um momento muito emocionante, porque pude finalmente tocar a porta da minha casa. A porta tem batentes em forma de cruz, e a cruz significa muito para mim.

O sr. tem algumas palavras para os seus amigos de Portas Abertas?

Muito obrigado por suas orações, elas foram respondidas. Mas as coisas ainda não terminaram. Quantos mais permanecem na prisão? Quantos mais precisam do nosso apoio? É onde entram os nossos esforços, para continuar lutando, continuar orando, realizando a missão de libertar nossos irmãos que estão presos injustamente. O sofrimento continua.

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